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Manuel Mendes e sua Mãe

A Mãe de D. Manuel Mendes da Conceição Santos, de nome Maria da Conceição Rodrigues Mendes, nasceu a 8 de dezembro de 1845, vindo a falecer a 28 de janeiro de 1918. Do casamento com Manuel Mendes, nasceram sete filhos, mas apenas dois sobreviveram: o Manuel e o Joaquim, levando-a a viver uma vida de profunda angústia, temendo pelo futuro dos seus filhos, unido ao sofrimento por ver a derrocada material da sua família, tendo de deixar a sua terra e a sua casa para procurar outro local para recomeçar a vida.

O segredo da sua vida estava na oração. Quem o contou foi, mais tarde, ela mesma a seu filho, já Bispo de Portalegre, em carta datada de 9 de setembro de 1916: “Dizes-me que no meio da tua tão espinhosa missão e de tanta responsabilidade, que vês mais claramente a proteção da nossa boa Mãe do Céu sobre ti: é verdade. Na Capela de Pé de Cão, diante da sua imagem e banhada em lágrimas, muitas vezes pedi que tomasse os meus filhos à sua conta e cuidasse deles como coisa sua; e, na verdade, é-nos bem visível a sua proteção. Oxalá lhe sejamos gratos”.

Se num primeiro momento a vida de Maria da Conceição se resumia em três palavras – Deus, marido e filhos –, num segundo momento apenas se resumia na palavra solidão, pois “tendo dado a Deus o que Deus lhe dera para acompanhá-la na última jornada da vida, satisfazia as amarguras das longas ausências e das rudes solidões da casa com a vivida esperança de que para mais altos e elevados destinos, para mais útil e vigoroso futuro o criara!… Os homens não compreendem este amor, mas Deus compreende-o! É que a mãe do Bispo sabe que não existe o hoje nem o amanhã, mas o sempre!”

Dom José do Patrocínio Dias, na carta que escreve a D. Manuel Mendes da Conceição Santos, por ocasião do primeiro mês da morte de Maria da Conceição, descreve-a como “uma das almas a quem melhor tenho visto representar no seu exterior a bondade de Nosso Senhor” e que esta bondade mostrou e ensinou ao seu amado filho.

Se os sentimentos desta mãe por seu filho são incontáveis, também o amor de Manuel Mendes é impossível descrever em tão pouco espaço e usando a linguagem humana… Escutamos o coração do servo de Deus falando de sua mãe, aquando do terrível sofrimento provocado pela sua partida: “São impenetráveis os juízos de Deus, mas uma voz íntima e suave me está segredando que o Senhor a levou sem tardança para junto de Si, pois para isso a esteve purificando no crisol da longa doença, durante a qual nunca ela murmurou da Providência, mas antes frequentes vezes fazia atos positivos de conformidade com a vontade divina. […] Estás junto daquele Deus que sempre amaste, não é assim? E lá não te lembras de mim e do Joaquim que chorava tão inconsolável junto do leito?” Ou no mesmo dia: “Verdadeira filha de São Francisco, não só pela profissão de Terceira, mas ainda pela humildade, pela austeridade e pela vida de mortificação […] O rosário que lhe pende do cordão e a medalha de Filha de Maria que lhe brilha sobre o peito inerte, estão ali a atestar como ela amou a Mãe Celeste. Foi, depois de Jesus, o seu amor e a sua grande esperança. Bastas vezes ela dizia que, ao ver-se sem meios para nos educar, nos entregava, a mim e a meu irmão, à Virgem Santíssima. A nossa mãe celeste ouviu a súplica e aceitou o encargo que lhe confiava a mãe da terra e tem velado por nós com um carinho excecional. É o caso de repetir, aplicando-a à minha querida finada: a descendência dos justos será abençoada… ou ainda: embora doente e confinada há muito num leito, a sua presença enchia a casa, o sabermos que ela estava ali dava-nos alento; e agora? […] E, contudo, uma ideia divinamente consoladora vem juntar-se a estas desoladoras considerações: parece que o ambiente está perfumado das suas virtudes, a recordação dos seus exemplos é um bálsamo reconfortante e uma esperança suavíssima nos dias que ela está junto de Deus. É a mão bondosa e paternal de Deus a suavizar a minha dor”.

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A infância de Manuel Mendes da Conceição Santos

Manuel Mendes da Conceição Santos nasceu a 13 de dezembro de 1876, numa localidade da freguesia de Olaia, denominada Pé de Cão, Concelho de Torres Novas, às 6 horas da tarde. Seu pai era Manuel Mendes, casado em primeiras núpcias com Maria dos Reis, da qual teve uma filha de nome Maria, falecida em tenra idade; dele se afirmava ter sido um homem de abastada fortuna, empreiteiro de obras, e que tudo perdeu por ter sido fiador de alguém pouco sério ao pagar o que devia, ficando reduzido a uma quase pobreza. E sua mãe era Maria da Conceição Rodrigues Mendes, casada em segundas núpcias com Manuel Mendes.

Neto paterno de Joaquim Mendes e de Justina Rosa Mendes e materno de Manuel Rodrigues dos Santos e Sebastiana Maria, foi batizado na Igreja Matriz de Olaia no dia 28 de Dezembro de 1876, tendo recebido, como Madrinha de batismo, Nossa Senhora do Ó.

Crescido num ambiente de profunda religiosidade, fomentado pela sua mãe, cujo segredo da sua vida era a fé e a oração, Manuel Mendes sempre impressionou os seus companheiros de escola e de vida, pelo seu “odor de inocência”, tantas vezes por ele pedida ao Senhor, como se pode ler ainda nos apontamentos do retiro que fizera aos 76 anos: “Senhor, fazei-me puro como um anjo”, graça esta que o Senhor lhe ia concedendo. De tal modo que, para os seus pares, sempre foi considerado um anjo e, por isso, teve lugar na pintura da Capela do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz do Cartaxo.

Tendo havido a necessidade de vender a casa de Pé de Cão, Manuel Mendes deslocou-se com os pais e irmãos para os Soudos. E, aos nove anos, depois de aprendidas as primeiras letras, parte para Carvalhal da Aroeira, a fim de estudar Português e Latim com o seu tio-avô, o Padre Joaquim Gomes Duque, um humanista de grande saber. Dali foi para Torres Novas, onde frequentou uma escola particular a fim de se habilitar para o exame de instrução primária elementar, em que ficou reprovado, quando, ao tempo já lia correntemente os clássicos latinos.

E, no ano seguinte, faz os exames do elementar e do complementar, passando em ambos com distinção.

Porém, há um outro acontecimento que marca a sua vida e cujas agendas pessoais não poucas vezes fazem referência. Tinha Manuel Mendes 11 anos quando, a 3 de junho de 1888, fez a sua Primeira Comunhão, graça que tantas vezes agradece e pela qual oferece a Eucaristia que celebra. Por exemplo, em 1916 escreve: “Missa em honra de Nossa Senhora para que me faça fiel à graça da primeira comunhão”; em 1924, oferece a Eucaristia “em ação de graças pela minha 1.ª Comunhão e pelos que nela me acompanharam e para ela me prepararam”. E ainda em 1938 faz referência que oferece a eucaristia em “ação de graças pela primeira comunhão feita há cinquenta anos e por todos os benefícios que dela derivam”.

Podemos afirmar que estas foram as bases intelectuais e espirituais que fizeram dele um dos Bispos mais ilustres, sócio da Academia de Ciências e de quem Júlio Dantas escreveu: “Doutor pela Universidade romana de Santo Apolinário, latinista, helenista, espírito cultíssimo, escritor notável, o Senhor Dom Manuel Mendes impôs-se, sobretudo, à admiração dos contemporâneos como orador, pelo prestígio, pelo trabalho e pela autoridade da sua palavra.