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Viver o Advento com D. Manuel Mendes – Apresentação

O Advento é o tempo que prepara o mistério do Seu nascimento, é o tempo que a Igreja nos concede para nos prepararmos para Aquele que nos mostrará o rosto de Deus. E não há melhor forma para nos prepararmos para uma pessoa do que preparar com uma pessoa. Desta forma, queremos deixar-vos uma proposta de retiro pessoal de Advento, com Maria, percorrendo a partir do Servo de Deus Manuel Mendes da Conceição Santos, Presbítero do Patriarcado de Lisboa, Vice Reitor do Seminário da Guarda e governador da mesma diocese, aquando da implantação da República, Bispo de Portalegre e Arcebispo de Évora.

A sua vida é, para todos nós, exemplo de uma humildade extrema em todas as situações e de uma paciência quase inalterável, principalmente quando tinha de corrigir alguém, esperando a ocasião em que estivessem mais recetivos. Profundamente humano nas suas atitudes, compreendia as fragilidades dos outros, tornando-se, pela forma simples como vivia, modelo vivo e argumento convincente da virtude da obediência. Grande missionário, sem regatear tempo ou saúde, a todos os recantos da sua querida Arquidiocese levou Jesus Cristo e a Sua Pessoa e, erudito nas palavras, levou a Portugal inteiro a defesa da fé e da Igreja até onde os seus limites podiam e a necessidade o levava. A sua fé na providência divina e confiança em Maria Santíssima levaram-no a atravessar o caminho que dista entre o “não queremos este homem a governar-nos” (11 de fevereiro de 1921) até “morreu-nos um santo, morreu-nos um pai” (31 de março de 1955).

Tudo isto se tornou possível porque a sua vida estava fortemente enraizada numa oração intensa e profundamente eucarística, tomando Maria por sua querida Madrinha, São José por seu grande colaborador na administração, Santa Teresa de Lisieux, modelo da sua espiritualidade e São Luiz de Gonzaga, modelo da pureza sacerdotal.

As duas frases orientadoras da sua espiritualidade e da sua total confiança na Soberana Vontade de Deus são: “Coragem e Confiança” e “Minha Mãe, confiança minha”.

Este “retiro” é feito a partir do livro Advento com Dom Manuel Mendes da Conceição Santos, publicado pela Postulação da Causa de Beatificação do Servo de Deus Dom Manuel Mendes e que poderá adquirir nas Livrarias Canção Nova, nos Serviços Diocesanos da Pastoral e em algumas livrarias diocesanas.

Poderá viver este retiro de cerca de 10 minutos diários, todos os dias, com a companhia do vice-postulador da Causa, Padre Ricardo Lameira, através da Rádio Elvas, às 09h00, com repetição às 18h15 e da TV Canção Nova, às 19h00, após a recitação do Terço, em direto da Capelinha das Aparições.

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Encontro com a Mãe

O dia 23 de outubro de 1895 fica marcado para sempre na vida do jovem seminarista Manuel Mendes da Conceição Santos. Indo ele a caminho de Roma para continuar os seus estudos, com os seus medos, as suas inseguranças, a responsabilidade de representar um país e os seus futuros sacerdotes no centro da Cristandade, passados os Pirenéus e entrando em França, ele encontrou a Mãe, Nossa Senhora de Lourdes. Aquele encontro foi tão importante que para sempre marcou a sua vida.

Mais uma vez, vamos ao seu caderninho de apontamentos ou diário de bordo e transcrever o que se refere às curtas 28 horas em que Manuel Mendes se encontra com a Mãe e com o seu solar, em Lourdes.

«Erguiam-se, diante de nós, majestosamente, os Pirenéus coroados de nuvens, e ao nosso lado estendiam-se vastas campinas onde se notavam os benéficos efeitos da drenagem. Havíamos passado a estação de Mouthant-Betharram quando, pouco depois, os Pirenéus nos apresentaram um espetáculo inteiramente novo e cheio de atrativos. Um grande crucifixo coroava a montanha e mais abaixo erguia-se majestosa a Igreja de N.ª S.ª de Lourdes – espetáculo fascinador, sensação extraordinária. Os nossos corações apressam as pulsações e anelam pela ocasião solene de orarmos à Virgem nestes lugares que ela santificou com a sua presença.

Chegados à estação, dirigimo-nos à Igreja de N.ª S.ª de Lourdes. Ao entrarmos na igreja, que sublime espetáculo fomos encontrar! Que majestade!, que elevação de pensamento! – Centenas de bandeiras pendem da parte superior do edifício e as paredes estão literalmente cobertas de lápides comemorativas de graças e, em toda a extensão das naves, pendem inúmeros ex-votos, corações dourados e pequeninos quadros, tudo comemorando graças da Imaculada.

A igreja é majestosa, consta de três naves e tem numerosos altares e muitas estátuas. Predominam as da Virgem e do SS. Coração. Tem uma só torre sobre a porta principal, segundo o estilo francês. Lá ao fundo, sob um gracioso baldaquino simulando uma basílica, eleva-se uma estátua de Nossa Senhora de Lourdes em cuja honra são todas as magnificências que aqui se admiram. Orei por algum tempo neste templo bendito e depois desci à cripta onde tive a invejável felicidade de confessar-me e comungar. Aqui se dizem continuamente muitas missas e, em todas elas, há numerosas comunhões de homens e senhoras de todas as condições. Aqui as formas são pesadas e severas, convidando ao recolhimento, ao passo que as formas graciosas e arrojadas da igreja arrebatam a imaginação fazendo-a adejar pelos coros celestiais. Na cripta há um recolhimento difícil de imaginar; ali todos os lábios murmuram preces ferventes, todos os corações pulsam de amor, todos estão repassados de uma devoção que só santuários como este podem contemplar. Daqui passei à gruta: não sei nem posso explicar a comoção que se sente quando, depois de descer a ladeira que vai expirar nas margens do Gave se vê a gruta fragosa, a Imagem da Virgem alva de neve numa cavidade alpestre, dezenas de lumes ardendo continuamente, centenas, para não dizer milhares de muletas, talos e outros instrumentos próprios de doentes e, dentro da gruta e nas lajes da avenida, ajoelhada, uma multidão de crentes, uns derramando lágrimas, outros murmurando preces, outros beijando a gruta bendita.

Aqui um cristão necessariamente ajoelha, ora, suplica, agradece e sente-se preso a este lugar perfumado pelos suaves odores da presença de Maria. Aqui um ímpio arrepende-se, um ateu crê, um fatalista ora. Se há no mundo lugares que possam comparar-se com o Céu, é Lourdes um deles, ou antes, Lourdes é um vestíbulo, uma miniatura do Céu. Há ainda a Basílica do Rosário, soberba construção, onde a par da grandeza se admira a beleza das proporções e que deve ser esplêndida, quando concluídos os magníficos mosaicos das capelas. Já está concluído o do Nascimento do Menino Jesus, o qual engana a vista parecendo pintura finíssima. Visitei o Convento dos Missionários do Imaculado Coração a cujo superior fiquei sobremaneira obrigado.

Foi com a saudade no coração que me afastei destes Santos Lugares para seguir a viagem no dia 24, às 10 horas da manhã, depois de ter estado em Lourdes 28 horas que me pareceram poucos minutos. Lourdes é, por excelência, a Cidade da Virgem. Aqui chegou no dia 24, às 7 horas da manhã, uma peregrinação da Ordem Terceira de Pau, a qual, quando entrou, elevou à Virgem cânticos tão ferventes e tão harmoniosos que me pareciam hinos angelicais, entoados ao som das harpas dos Querubins. A igreja parecia-me um céu.

Disse adeus a Lourdes e, a par da saudade, levava na alma a esperança de que a Virgem me auxiliaria e escutaria meus rogos. Quem estiver desanimado, em Lourdes encontra necessariamente alento e esperança».

É longa a transcrição, mas não é certamente inútil. Por ela se compreende a profundidade da sua devoção a Nossa Senhora e o lugar que Lourdes ocupou no seu coração e na sua vida: foi lá que, não poucas vezes, foi como peregrino da Mãe de Deus, pedindo por si e pelos seus diocesanos; decisivas resoluções foram tomadas por ele naquele lugar, onde rezava horas seguidas em favor do governo e da Sua esposa, a Igreja de Évora, e a salvação das almas dos seus Diocesanos.

A confiança e o espírito filial para com Nossa Senhora não se ficou pelas suas peregrinações a Lourdes, mas com a vinda de Lourdes com o prelado eborense para o Paço Arquiepiscopal… quando se entrava, em seu tempo, na simplicíssima Capela do Paço, havia de se reparar que o vão de uma porta tinha sido aproveitado, por ele, para ali colocar uma minúscula reprodução da Gruta de Massabiele com uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes. E, mesmo ao lado, fizera colocar o seu genuflexório, como que Nossa Senhora lhe segredasse ao ombro o caminho por onde deveria conduzir a Igreja Diocesana que lhe tinha sido confiada. No quintal havia também uma Imagem da Virgem de Lourdes onde, não poucas vezes, foi visto a falar com Nossa Senhora e a desabafar as mágoas contidas do seu coração de Prelado.

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Rumo à Cidade Eterna

Em virtude das suas excecionais qualidades morais e intelectuais, o Patriarca de Lisboa, o Cardeal Dom José Sebastião Neto, escolhe Manuel Mendes para ir completar, em Roma, a sua formação académica e ocupar um dos três lugares criados no Seminário Pontifício Romano (também denominado por Seminário do Papa), com a bolsa de estudos oferecida pelo Papa Leão XIII para os alunos provenientes do Patriarcado de Lisboa.

Quem conheceu de perto a sensibilidade da sua alma, o seu amor à família, a sua dedicação aos professores e aos colegas, o seu ardor patriótico e se apercebeu também da sua grande fé e amor à Santa Igreja, compreenderá que seria ele, um dos escolhidos para se formar em Roma…

Tudo estava preparado para que Manuel Mendes partisse em outubro de 1894, para iniciar os seus estudos em Roma, não fosse o problema de saúde que dele se apoderou. É ele próprio que escreve sobre isso no seu caderninho das contas: “Em outubro de 1894 vim para o Seminário no dia 1 para estudar alguma coisa de italiano e no dia 3 partir para Roma. No dia 3 adoeci e, ainda no Seminário, tomei 20 cápsulas de sulfato de quinino, meio litro e mais 700 gramas de limonada sulfúrica e um litro de limonada saturada de citrato de magnésio. No dia 27 do mesmo mês, parti para a minha casa onde se me agravou o estado de saúde e lá estive em tratamento até ao dia 11 de dezembro, em que voltei para o Seminário. No dia 12, apresentei-me aos professores que, de muito má vontade, me admitiram na aula, principalmente o Sr. Dr. Jerónimo”.

Porém, nada disto obsta a que, nesse mesmo ano, apesar das vicissitudes de saúde e da pouca vontade dos professores, tenha frequentado, com aproveitamento, o primeiro ano de teologia no Seminário Patriarcal, tendo partido para Roma, no ano seguinte, no dia 20 de outubro de 1895, a fim de frequentar a Universidade de Santo Apolinário, onde havia de doutorar-se em Teologia, em maio de 1898 e o Instituto fundado por Leão XIII, onde se diplomou em Letras Latinas, especializando-se em Grego, Hebraico e Árabe e aprofundado os seus estudos das “línguas vivas”, como italiano, castelhano, francês, inglês e alemão, sem nunca descurar a sua vida espiritual. Pelo contrário, a ela se entregava com todo o empenho, alicerçado em quatro grandes pilares: na coragem aprendida do Sagrado Coração de Jesus, na confiança em Nossa Senhora, e na devoção a São José e identificação com São Luís de Gonzaga, seu angélico protetor, pedindo-lhe que o fizesse um sacerdote santo.

A sua viagem para Roma inicia-se a 20 de outubro de 1895 e, com ele, vai o seu amor fiel ao Seminário de Santarém. Amor fiel que durou até ao fim da sua vida; “se eram para ele saudosas as paredes daquele glorioso Seminário, igualmente o eram companheiros e superiores; mais tarde, nunca passará por Santarém sem entrar nesse santuário para conviver por instantes com os mestres, os seus antigos condiscípulos. Nas suas festas mais importantes estará presente: no alargamento das instalações «reconquistadas», nas homenagens ao Venerando Reitor, etc…. Não só pela posição que ocupava na Igreja, mas ainda pelos laços do coração que o prendiam ao velho Seminário, ele era a mais alta glória do Seminário de Santarém”, como havia de escrever o Cardeal Cerejeira.

A bonita viagem que o jovem seminarista está a fazer até à Cidade de Roma vai sendo descrita no seu pequenino caderno de apontamentos: descreve as terras portuguesas e espanholas por onde vai passando na sua viagem de comboio, nota se as pessoas e os empregados são atenciosos e delicados, regista que aquela senhora vai a rezar o terço e fixa a hora exata da sua entrada em França e a impressão que os Pirenéus lhe causam, com surpreendente beleza das suas paisagens, até se deter, no dia 23 de outubro de 1895, em Lourdes, momento marcante da sua vida.