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Manuel Mendes prepara-se para a Ordenação Presbiteral

Manuel Mendes, como ficou conhecido desde os tempos do Roma, regressa a Portugal. Depois de, a 4 de maio de 1898, terminar o seu doutoramento em teologia, regressa ao país que o viu nascer e crescer na vida e nas virtudes naturais, como na vida sobrenatural e na caminhada vocacional, para, a 12 de dezembro do mesmo ano, ser ordenado diácono. E, cinco meses mais tardes, a 27 de maio de 1899, recebe, na Igreja do Seminário patriarcal de Santarém, pela imposição das mãos e oração consecratória, a sua ordenação presbiteral.

Antecedeu a esta data o seu retiro preparatório para a ordenação, aquele dia tão esperado e desejado pelo jovem Manuel Mendes e que, pelas circunstâncias da sua débil saúde, algumas vezes terá pensado não vir a passar de sonho, com início no dia 19 de maio. Colocando-se ele diante de si mesmo e do Senhor, a sua primeira atitude é reconhecer a razão daquele tempo de intimidade e que, fruto dos sentimentos do seu coração, transcreve no seu bloco de apontamentos: “A importância deste retiro deduz-se do seu fim, que é regular as nossas contas com Deus e pôr-nos no caminho da salvação. Os meios que temos para tirar dos exercícios todo o fruto devido são uma grande pontualidade em cumprir o horário e uma grande generosidade para com Deus”. E termina os seus apontamentos com uma breve oração: “Ó Jesus, eu me lanço nos vossos braços, disponde de mim como Vos aprouver, fazei de mim o que quiserdes. Que eu me reforme!”.

Meditando o Diácono Manuel Mendes no fim último do sacerdócio, conclui que é um dom “altíssimo, mas tremendo. É continuar a obra de Jesus Cristo na salvação das almas e oferecer o sacrifício augusto em que se imola o mesmo Deus. É um ministério que faria tremer os anjos… quais os meios para desempenhar bem estas funções e conseguir o fim? A oração mental, o Ofício Divino e a santa Missa”; o propósito que tira desta meditação é o seguinte: “Não deixar nunca a meditação, não deixar a preparação e ação de graças da Missa”; e o seu lugar é com Cristo Crucificado e Maria, no alto do Calvário: “Como obedece o meu Rei àqueles malfeitores, com os perdoa e reza por eles… E eu? Pelo menos, vou imitá-lo de agora em diante: ouvi os meus clamores. Reza pelos que o crucificam, dá-nos a sua Mãe como nossa Mãe. Como te amamos, ó Mãe? Ó Maria, lembra-te do testamento do teu Filho e faz de mim o teu verdadeiro filho. Tenho sede! Sede de quê, ó Jesus? Do sofrimento e das almas. Aqui está a sede que devo ter como sacerdote, principalmente se o Senhor quiser algum sacrifício e desapego de mim mesmo. Depois de tanto sofrimento Ele entregou o Seu Espírito ao Pai. Porquê? Para poder dizer que tudo está consumado. Ele cumpriu a vontade de Seu Pai. Também eu quero repetir as mesmas palavras no fim da minha vida; e, todos os dias, quero sacrificar e fazer o que Deus quer que eu faça. Então, começo a paz!”

Fruto deste mesmo retiro, que durou uma semana e no qual procurou rever toda a sua vida, fazendo da sua ordenação presbiteral uma “repartida” que o levaria à meta onde Jesus Cristo, Sumo o Eterno Sacerdote estaria à sua espera e o acolheria com o abraço da Trindade, no reino dos céus, nasceram grandes propósitos, os quais foram preocupação constante ao longo de toda a sua vida, não só na dimensão espiritual ou sobrenatural mas também na dimensão e natural, a fim de, cada vez mais, se aproximar do Senhor e com Ele viver uma profunda e séria comunhão. Exemplos desse desejo são, a fim de alcançar a virtude da temperança, “não me exceder na comida e sobretudo na bebida. Não me levantar da mesa sem ter feito alguma mortificação de gula” e, para obter a virtude da caridade, “ser muito afável e doce para com todos. Não me impacientar com os pecadores e usar para com os pobres de uma benevolência especial”. Para alimentar e sustentar a sua vida de fé, propõe-se “fazer todos os dias, apenas levantado, meia hora de meditação. Fazer sempre a preparação para a missa e no fim pelo menos um quarto de hora de ação de graças. Muito recolhimento na Missa. Confissão Semanal. Retiro mensal, nas quintas antes da primeira sexta-feira. Exame geral quotidiano e particular sobre o amor próprio. Terço quotidiano e devoção a São José”.

Foi com estes profundos propósitos – sem deixarem de ser simples e acessíveis a todos –, que o jovem Manuel Mendes subiu ao Altar do Senhor para se tornar Sacerdote do Senhor, segundo a ordem de Melquisedec, no dia 27 de maio de 1899, sendo ordenado por D. Manuel Batista das Cunha, Bispo Auxiliar de Lisboa e Arcebispo de Mitilene.

A Postulação

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Na Cidade Eterna nem tudo foram rosas…

O ano de 1897 foi, para o jovem Manuel Mendes, um ano muito difícil. Os problemas de saúde que não permitiram que ele fosse para Roma iniciar os estudos teológicos, em outubro de 1894, e que o prenderam à cama até 12 de dezembro, voltam a atormentá-lo ao longo de todo o ano de 1897, desde o primeiro dia do ano até aos finais de outubro.

Percorrendo as suas agendas pessoais que, acima de tudo, são o seu diário, pois é nelas que, desde 13 de dezembro de 1896 até à sua morte, Manuel Mendes vai escrevendo algumas notas de experiências vividas cada dia, percebemos que foi, sem dúvida, um ano muito difícil, de uma crise de saúde muito acentuada. No dia 1 de janeiro escreve: “Recebi hoje uma caixa com cápsulas que amanhã começarei a tomar por causa de uma tosse que trago há dias” e, no dia 5, escreve: “hoje fiquei na cama para ver se curava a tosse. Veio o médico novo, Pergallo, e mandou-me para a enfermaria. Cá estou, portanto na enfermaria, pela primeira vez desde que estou no Seminário Romano. Deus queira que seja por pouco tempo”. Dois dias depois, explica que “toda a minha doença é tosse, mas como ela é muito forte tenho que ter cautela”.

Por aconselhamento do médico, muitos meses do ano de 1897 foram passados no Sanatório marítimo de Nettuno. Porém, não foi tempo perdido, pois o jovem Manuel Mendes foi aproveitando para se preparar para os exames, ainda que, pelas circunstâncias de saúde, não pudesse ter participado nas aulas, como ele próprio escreve na sua agenda, no dia 9 de julho, onde pode ser lido: “Passei todo o dia a preparar-me para o exame de licença que farei amanhã”. E, no dia 10, escreve: “Fiz o exame de 3.º ano de Teologia hoje, às 6 horas da tarde e, graças a Deus, passei a pieni voti. Foi decerto uma graça que Nossa Senhora me fez, pois eu estava com muito medo”.

Terminados os exames, a 27 de julho, vai para Rocantica, para, numa quinta do Seminário ali existente, fazer alguns tratamentos com os ares do campo. Mas, no dia seguinte, o médico reenvia-o para Nettuno, onde ficará até ao dia 28 de outubro de 1897, data em que regressa totalmente refeito da sua saúde.

Não obstante a circunstância de estar longe dos seus companheiros e dos objetivos que o levaram para Roma, nos apontamentos que vai registando nas suas agendas, tudo e todas as circunstâncias vai aproveitando para viver na alegria de se sentir filho e amado por Deus. Na sua profunda confiança em Nossa Senhora, nesta hora que terá sido difícil para Manuel Mendes, escreve: “Eis-me de novo nesta praia, longe dos meus companheiros e quem sabe por quanto tempo? Nossa Senhora queira que seja pouco e melhore depressa”. E foram ainda mais três meses…

Até na doença e na recuperação da sua saúde tudo era “aproveitado” por ele como dom de Deus, até a passagem de sacerdotes de outras origens, para aprofundar e praticar os seus conhecimentos em língua estrangeira. São de realçar ainda duas facetas do jovem seminarista: a alegria e o tempo.

Mesmo em ocasiões de sofrimento, a gratidão que leva à alegria cristã era uma constante em todas e por todas as circunstâncias, como se pode ler na sua agenda, em duas ocasiões diferentes deste mesmo tempo: no dia 11 de agosto escreve: “dei um passeio de barco com mais 12 ou 13 pessoas. Foi uma excursão verdadeiramente poética e alegre que deixou todos contentes. Havia bons cantores na comitiva e no meio do majestoso silêncio da noite, sobre a superfície ondulada do mar, eram de um mágico efeito os harmoniosos cantos que se entoavam.” E a 1 de outubro escreve: “partiram hoje os missionários do Sagrado Coração (companheiros em Nettuno), com quem tenho estado em tão alegre companhia”.

O sofrimento ensinou Manuel Mendes a valorizar o tempo como dom de Deus e que, como tal, não pode ser desperdiçado, como ele próprio escreve: “Oxalá que o ano que hoje começa seja todo passado no fiel cumprimento dos meus deveres, a fim de que ao fim dele, se Deus permitir que eu lá chegue, eu não sinta o mínimo remorso por haver empregado mal o tempo que Deus me concede.”

A Postulação