00dom-manuel-mendes19042417202teste

Na Cidade Eterna nem tudo foram rosas…

O ano de 1897 foi, para o jovem Manuel Mendes, um ano muito difícil. Os problemas de saúde que não permitiram que ele fosse para Roma iniciar os estudos teológicos, em outubro de 1894, e que o prenderam à cama até 12 de dezembro, voltam a atormentá-lo ao longo de todo o ano de 1897, desde o primeiro dia do ano até aos finais de outubro.

Percorrendo as suas agendas pessoais que, acima de tudo, são o seu diário, pois é nelas que, desde 13 de dezembro de 1896 até à sua morte, Manuel Mendes vai escrevendo algumas notas de experiências vividas cada dia, percebemos que foi, sem dúvida, um ano muito difícil, de uma crise de saúde muito acentuada. No dia 1 de janeiro escreve: “Recebi hoje uma caixa com cápsulas que amanhã começarei a tomar por causa de uma tosse que trago há dias” e, no dia 5, escreve: “hoje fiquei na cama para ver se curava a tosse. Veio o médico novo, Pergallo, e mandou-me para a enfermaria. Cá estou, portanto na enfermaria, pela primeira vez desde que estou no Seminário Romano. Deus queira que seja por pouco tempo”. Dois dias depois, explica que “toda a minha doença é tosse, mas como ela é muito forte tenho que ter cautela”.

Por aconselhamento do médico, muitos meses do ano de 1897 foram passados no Sanatório marítimo de Nettuno. Porém, não foi tempo perdido, pois o jovem Manuel Mendes foi aproveitando para se preparar para os exames, ainda que, pelas circunstâncias de saúde, não pudesse ter participado nas aulas, como ele próprio escreve na sua agenda, no dia 9 de julho, onde pode ser lido: “Passei todo o dia a preparar-me para o exame de licença que farei amanhã”. E, no dia 10, escreve: “Fiz o exame de 3.º ano de Teologia hoje, às 6 horas da tarde e, graças a Deus, passei a pieni voti. Foi decerto uma graça que Nossa Senhora me fez, pois eu estava com muito medo”.

Terminados os exames, a 27 de julho, vai para Rocantica, para, numa quinta do Seminário ali existente, fazer alguns tratamentos com os ares do campo. Mas, no dia seguinte, o médico reenvia-o para Nettuno, onde ficará até ao dia 28 de outubro de 1897, data em que regressa totalmente refeito da sua saúde.

Não obstante a circunstância de estar longe dos seus companheiros e dos objetivos que o levaram para Roma, nos apontamentos que vai registando nas suas agendas, tudo e todas as circunstâncias vai aproveitando para viver na alegria de se sentir filho e amado por Deus. Na sua profunda confiança em Nossa Senhora, nesta hora que terá sido difícil para Manuel Mendes, escreve: “Eis-me de novo nesta praia, longe dos meus companheiros e quem sabe por quanto tempo? Nossa Senhora queira que seja pouco e melhore depressa”. E foram ainda mais três meses…

Até na doença e na recuperação da sua saúde tudo era “aproveitado” por ele como dom de Deus, até a passagem de sacerdotes de outras origens, para aprofundar e praticar os seus conhecimentos em língua estrangeira. São de realçar ainda duas facetas do jovem seminarista: a alegria e o tempo.

Mesmo em ocasiões de sofrimento, a gratidão que leva à alegria cristã era uma constante em todas e por todas as circunstâncias, como se pode ler na sua agenda, em duas ocasiões diferentes deste mesmo tempo: no dia 11 de agosto escreve: “dei um passeio de barco com mais 12 ou 13 pessoas. Foi uma excursão verdadeiramente poética e alegre que deixou todos contentes. Havia bons cantores na comitiva e no meio do majestoso silêncio da noite, sobre a superfície ondulada do mar, eram de um mágico efeito os harmoniosos cantos que se entoavam.” E a 1 de outubro escreve: “partiram hoje os missionários do Sagrado Coração (companheiros em Nettuno), com quem tenho estado em tão alegre companhia”.

O sofrimento ensinou Manuel Mendes a valorizar o tempo como dom de Deus e que, como tal, não pode ser desperdiçado, como ele próprio escreve: “Oxalá que o ano que hoje começa seja todo passado no fiel cumprimento dos meus deveres, a fim de que ao fim dele, se Deus permitir que eu lá chegue, eu não sinta o mínimo remorso por haver empregado mal o tempo que Deus me concede.”

A Postulação