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Na formação de uma Igreja consciente e responsável

A missão do Padre Manuel Mendes que mais deixou marca na Diocese da Guarda foi, sem dúvida, por um lado, a de vice-reitor do Seminário diocesano e impulsionador da obra das vocações, por outro lado, a de governador na prática dessa mesma Diocese. Porém, como alguém afirmou um dia, “as paredes do Seminário não eram capazes de reter cativo o espírito do Vice-Reitor”.

Impelido pela missão de levar a Boa Nova a todos os que, naquele contexto histórico e social tão adverso à Igreja e à doutrina deixada por Jesus Cristo, fez-se voz e testemunho de Cristo na vida dos homens. Rezou e fez rezar, anunciou e viveu o que propôs a cada cristão: encontrar-se com o Senhor na oração, encontrar o Senhor na caridade. Com o objetivo de levar cada cristão à vida de oração, tudo fez para que, em cada Paróquia, existisse um centro do Apostolado de Oração, criando onde não existia e animando os decaídos; onde era possível, fundava a Associação das Filhas de Maria e, ante a pobreza existente, porque a “fé sem obras é morta”, fundou a obra do Agasalho dos Pobres, como consequência prática dos ensinamentos do Papa Leão XIII, apresentados através da Encíclica Rerum Novarum, com a qual se iniciou, de forma organiza e esquematizada,  a Doutrina Social da Igreja, a ponto de, pelos grupos mais conservadores da sociedade egitaniense, ser apelidado de “Socialista”.

Convencido do prodigioso poder da Imprensa para a difusão dos ensinamentos da Igreja, dedicou-se, de alma e coração, ao jornalismo onde a sua ação foi ainda mais saliente: nesta fase da sua vida, colaborou na revista Estudos Sociais de Coimbra e no jornal diário Novidades e fundou o jornal diocesano “A Guarda” e, para que os seminaristas aprendessem a importância do jornalismo e dessem os primeiros passos nesta ciência, fundo o jornal A Abelha.

Como jornalista, anotam os Anais Torrejanos, “bem conhecido é o valor e o brilhantismo da sua pena” e o jornal A Guarda, numa homenagem ao Padre Manuel Mendes, escreve: “durante anos foi ele que escreveu todos os artigos de orientação e de responsabilidade aí publicados como foi ele quem sempre dirigiu o jornal. À sua proficiente direção se devem, pois, os magníficos triunfos que A Guarda conta no seu passado e as gloriosas tradições que ilustram a sua vida”.

Manuel Mendes não foi apenas  diretor, mas também “um intemerato batalhador, mestre dos mestres do jornalismo  e, em larga medida, o criador do jornalismo católico, no sentido com que a Santa Sé o definiu e o Patriarca de Lisboa um dia explicou: com a eloquente gentileza que é timbre do seu talento oratório e padrão da sua sapiente prudência literária, foi um príncipe dos jornalistas, na vastidão da cultura, na técnica da composição, no desinteresse pessoal, no zelo ardente das altas e nobres ideias que a Igreja representa, defende e espalha”, como Francisco Maria da Silva, seu biógrafo, realça na obra “Alma do Arcebispo Apóstolo”. Também o jornal A Guarda, num dos seus números do ano de 1956, refere que “desde o princípio, ainda que as afanosas lides lhe roubassem o tempo, estivesse longe ou perto, sempre o seu primeiro pensamento, o seu mais útil trabalho era o jornal, certo de que, hoje como ontem, é à imprensa, mais que aos tablados dos comícios e mesmo às grades dos púlpitos, se deve o melhor quinhão na evangelização social do povo”.

Para suportar os preços da edição do jornal e não depender de qualquer outra reprografia, ousou o Padre Manuel Mendes criar a empresa “Veritas” e a ela dedicou toda a sua alma e todos os recursos da sua vastíssima inteligência. Pode mesmo afirma-se que terá sido umas das suas melhores e mais perduráveis obras.

No intuito de criar o gosto pela necessidade da evangelização, o Padre Manuel Mendes, nos princípios de dezembro de 1905, ou seja, pouco tempo após chegar à diocese da Guarda, levou por diante a realização do primeiro Congresso da história da Igreja em Portugal sobre a Catequese, motivado pela belíssima Encíclica “Acerbo Nimis” do Papa Pio X, onde apresenta à Igreja egitaniense o célebre “Catecismo de São Pio X” e profere uma conferência subordinada ao tema “Pio X e o Catecismo”. E, na continuidade deste trabalho em prol da catequização de todas as faixas etárias, traduz e adapta à realidade portuguesa o famoso “Compêndio da Doutrina Cristã”, o qual formou cristãmente tantos católicos durante décadas e décadas.

A Postulação

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No governo da Diocese

A perseguição à Igreja não desarmava. Dirigia-se principalmente contra o episcopado, sobretudo devido à sua reação contra a Lei da Separação da Igreja do Estado, pela forma como se encontrava redigida. Prevendo tempos difíceis e anormais para o governo da Diocese, D. Manuel Vieira de Matos, depois de, em 1909, por proposta sua ao rei D. Manuel II, conforme os costumes da época, o padre Manuel Mendes ter recebido o canonicato, decidiu nomear três governadores para a Diocese: os cónegos Barbas Freire, António Augusto Lopes e Manuel Mendes da Conceição Santos; e a razão está bem patente na Provisão de nomeação de 1911: “… para no caso de nos vermos forçado a deixar a diocese ou de sermos impedido de a administrar” porque, como refere D. Manuel Vieira de Matos no mesmo documento, é necessário “providenciar à regular administração da nossa Diocese na época anormal que a Igreja vai atravessando no nosso País”.

Afirma Francisco Maria da Silva na grande Alma do Arcebispo Apóstolo que “embora juridicamente seja o reverendo cónego Barbas Freire o governador, de facto, quem exerceu esse múnus foi o cónego Mendes dos Santos. São centenas as cartas que se conservam do Arcebispo exilado para o ‘Senhor Reitor’, tratando os mais variados assuntos relativos à Diocese, aos padres, ao apostolado em geral. Como centenas são as cartas recebidas por ele de sacerdotes, muitas repletas de pessimismo e do desânimo que lhes ia na alma. A todos encorajava, fortalecia, traçava normas com caridade, prudência e firmeza. E a todos defendia, sobretudo aos que eram perseguidos por amor da Igreja.

Pode mesmo afirmar-se que, nos momentos difíceis que a revolução de 5 de outubro de 1910 trouxe à vida das dioceses em Portugal, o Cónego Mendes Santos esteve à altura das circunstâncias na luta intrépida pelos direitos da Igreja, como bem se compreende ao ler-se a transcrição da sua intervenção em pleno tribunal em defesa de um sacerdote, da qual ousamos transcrever alguns excertos: “Pela primeira vez, nos anais deste tribunal, se viu um luzido grupo de Senhoras da primeira sociedade de Trancoso, a assistir a uma audiência. Gentilmente o senhor juiz mandou-lhes oferecer cadeiras adentro da teia, onde se viam também numerosos advogados e cavalheiros dos mais distintos da vila”.

“Quem afinava também de grande era o senhor administrador do concelho cuja ciência canónica não emparceira com o brilho do seu apelido e com ele a igrejinha doméstica, incluindo o infeliz sacerdote que se prestara a esta burla. Contra esse padre foi instaurado processo na cúria episcopal, por causa de gravíssima irregularidade que praticava”.

“Reaberta a audiência continuou a ser inquirido o senhor dr. Mendes Santos, ou melhor, continuou o debate entre o sr. dr. Delegado e esta testemunha, sobre o assunto que fora discutido na véspera. Por vezes a discussão acalorou-se, tornou-se palpitante, apaixonando o público que a ia seguindo com avidez, manifestada no religioso silêncio com que era escutada; e terminou após uma hora e meia, durante a qual, sempre com delicadeza irrepreensível e numa forma elevada se trocaram de parte a parte rijos botes de argumentação”.

“E voltando ao ponto de partida, como o sr. dr. Delegado tivesse aludido à possibilidade de o arguido ter desacatado as leis da República, o sr. dr. Mendes Santos disse que a República, pela letra da Constituição, garante a liberdade de consciência e esta supunha a liberdade integral da religião; mas se um dia uma lei pretendesse ingerir-se no domínio da sua consciência e impedir-lhe a prática da religião que professa e ama, ele sujeitar-se-ia às penalidades da lei, mas não atraiçoaria por ele a sua consciência e a sua religião”.

Palavras proféticas.

Junho de 1923

A Postulação

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Vice-Reitor do Seminário da Guarda

Tempos difíceis para a Igreja: arrombavam-se as portas dos templos, violavam-se os sacrários, mutilavam-se as imagens sacras, espoliavam-se os bens da Igreja, perseguiam-se os sacerdotes e os bispos, afastavam-se os fiéis do culto comunitário e vigiava-se o culto familiar e privado. É neste contexto que, em abril de 1903, Dom Manuel Vieira de Matos é nomeado Bispo da Guarda. Levava como plano pastoral para aquela diocese formar solidamente o clero, animar a Pastoral Juvenil e fortalecer o apostolado no meio operário.

Um plano tão divinamente ambicioso como humanamente impraticável neste contexto histórico. A não ser que, a seu lado, tivesse um colaborador tão inteligente como modesto, tão ativo com contemplativo ou sobrenatural, tão competente como afetivo… Com estas caraterísticas Dom Manuel Vieira de Matos, dos tempos de Bispo Auxiliar de Lisboa, só conhecia um sacerdote, na diocese de Lisboa, oriundo dos lados de Torres Novas e que estava a exercer o seu ministério no Seminário patriarcal de Santarém como professor, o Padre Manuel Mendes da Conceição Santos.

Havia, porém, um problema: esse sacerdote, porque era da diocese de Lisboa, só poderia ser deslocado para a diocese da Guarda se o Cardeal Patriarca o permitisse, o que percebeu, por resposta a cartas suas que era impossível, o que o levou a recorrer às mais altas instâncias eclesiásticas e a um diálogo muito pouco cordial, até que Dom José Sebastião Neto finalmente acedeu enviar o Padre Manuel Mendes para a Guarda, a fim de assumir a formação do futuro clero daquela diocese. Com a responsabilidade de ser “vice-reitor do Seminário da Guarda”, chega àquela cidade episcopal, sob os auspícios da Santíssima Virgem, sua “boa e querida madrinha”, no dia 8 de setembro de 1905 e, com ele, a fama que o acompanhava de cavaleiro ilustre, sacerdote exemplar e professor cheio de mérito.

As instruções recebidas do Bispo diocesano e a personalidade do Vice-Reitor do Seminário, alicerçada numa sólida piedade, numa vida disciplinar perfeita e de uma nítida compreensão da alta e exigente missão sacerdotal, foram influenciando a decisão livre e responsável de cada um dos candidatos ao sacerdócio que, não revelando quaisquer aptidões, fossem pedindo para abandonar aquela instituição. Ao mesmo que internamente cuidava da disciplina da comunidade residente no Seminário, exteriormente defendia a sua honra, os seus direitos e os seus formadores e formandos. Provam-no a carta por si enviada ao “Jornal do Povo”, em 1912, a fim de corrigir algumas afirmações que punham em causa a seriedade dos sacerdotes ali residentes e com missão formativa, através da qual deixa os seguintes esclarecimentos: “todos eles são dignos, de comprovada honradez e probidade, incapazes de abusar do seu ministério (no que aliás, cometeriam um crime gravíssimo) e eu prezo-me também de ter a hombridade necessária para não admitir infâmias desta ou doutra espécie”.

E quando tentam pôr em causa a parcialidade do Vice-Reitor, este responde com toda a firmeza: “dessas informações assumo toda a responsabilidade, desde que tenham sido dadas por mim, pois me guio sempre pela minha consciência e assim espero continuar a fazer, aconteça o que acontecer. Dos meus atos estou pronto a dar contas a quem tenha direito de mas pedir; os motivos que imperam no meu ânimo ao dar qualquer informação não posso nem devo assoalhá-las em público, proíbe-mo a dignidade e o respeito que devo às minhas funções e ao bom nome alheio”.

Estas injúrias vindas de fora e de dentro da Igreja eram simplesmente fruto do desejo de esvaziar a Igreja da sua moralidade com o intuito de, com justificação, encerrar o Seminário, o que veio a acontecer, sem motivo algum, a 28 de outubro de 1914, através de uma intimação na qual estava escrito que o Vice-Reitor deveria enviar os alunos para casa, despedir os formadores, abandonar a casa, entregar as chaves… depois de a 15 de abril de 1913, terem encerrado a sua Igreja e proibido o culto. Porém, não se deixou o Padre Manuel Mendes quebrar ante tal decisão e, a 30 de dezembro do mesmo ano, já estava a celebrar a Eucaristia num edifício, no Fundão, para onde iria, a partir de janeiro de 1915, o “Internato Académico” (Seminário da Guarda) com 25 alunos (seminaristas)…

A Postulação

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Os primeiros anos ao serviço do Reino

Ordenado Presbítero, Manuel Mendes continua a exercer as funções para as quais tinha recebido nomeação do Cardeal patriarca de Lisboa, Dom José Sebastião Neto, aquando da sua chegada a Portugal, ou seja, ser o Perfeito de Estudos do Seminário Patriarcal de Santarém, ministério que o acompanhou durante 5 anos, de 1900 a 1905, e professor do terceiro ano de latim, de conversação latina e de teologia dogmática. Em 1903, a estas disciplinas juntou ainda a lecionação da disciplina de Alemão e participação no júri dos exames de Inglês, no Liceu Nacional de Santarém.

A par da docência, a vida do Padre Manuel Mendes ao serviço do Reino abarcou muitas outras áreas, fundamentalmente no campo espiritual, fomentando uma verdadeira e profunda vida espiritual em tantas almas que, através dos retiros por ele pregados, da confissão sacramental ou da direção espiritual, foi considerado unanimemente um homem de coração e de talento.

Ocupa ainda um lugar muito importante no exercício do seu ministério destes primeiros anos de sacerdócio o serviço da pregação. Fruto do conhecimento que lhe vinha do estudo, da sensibilidade que lhe vinha da oração e da eloquência simples da palavra tocante que lhe vinha do conhecimento da pessoa humana e ainda da sua história de vida, amassada na Palavra de Deus, torna-se um inflamado e bem conhecido pregador (caraterísticas que manteve até aos últimos dias da sua vida para os mais variados e ilustres auditórios), porque anunciava Jesus Cristo aos homens com sede de Deus, matando a sede dos homens com a sede de Deus.

Exemplos claros são os seus escritos nestes primeiros tempos, onde se percebe que cada pregação era preparada com todo o cuidado e conhecimento da doutrina da Igreja, minúcia e arte no uso da sua língua materna e maturidade nascida da reflexão, que o levava a escrever com maestria, simplicidade, profundidade, musicalidade e extremo coração. Proferida na sua terra Natal, a sua primeira pregação manifesta, com profunda clareza, as caraterísticas anteriormente referidas: “Bela e consoladora é para todos vós e para mim esta coincidência […]. Para vós, porque no dia da glorificação da Virgem, vindes render pública e solene homenagem ao culto do Divino Espírito Santo, àquele por cujo hálito a Igreja é bafejada, cuja ação a anima, cujo influxo a vivifica […]. Para mim, porque filho desta freguesia, batizado nesta Igreja e tendo passado entre vós os primeiros anos da minha existência, não posso deixar de sentir um não sei quê de extraordinário em meu coração ao ver-me de novo entre vós a distribuir-vos o pão da divina palavra”.

Testemunha Francisco Maria da Silva, na obra “Alma do Arcebispo Apóstolo”, que o Padre Manuel Mendes “começou por onde todos começam: subiu, porém, a alturas de pouco atingidas. Foi Mestre na arte de dizer e entrou na Academia. Uma nota impressionante desde já: a fidelidade ao Evangelho. A sua pregação tem uma constante, que são as verdades eternas e reveladas, aplicadas sempre às necessidades dos novos tempos. Começou o seu magistério no púlpito, mostrando os flagelos inerentes ao pecado; quem o ouviu, ainda nos últimos anos de vida, quando subia à cátedra  solene da Sé ou se dirigia a auditórios simples, pode testemunhar que o tema ainda era idêntico. Cristalizará? Mas o Evangelho não é constante? Uma só coisa o preocupava: a glória de Deus e que os homens, com a sua vida honesta e pelo cumprimento integral do seu dever, prestassem ao Senhor as homenagens que Lhe são devidas”.

Todo este trabalho nunca o impediu de estudar, familiarizando-se e aperfeiçoando os seus conhecimentos nas línguas inglesa, francesa, alemã, espanhola e italiana, usando-as tanto na escrita como na oralidade com altíssima correção e “manejando-as com excecional facilidade”, como, mais tarde, grandes literatos o testemunham. Guilherme de Vasconcelos Abreu, notável orientalista, contemporâneo do Padre Manuel Mendes e considerado por muitos “insuspeito e sábio professor, testemunha que “fazendo um propositado, embora disfarçado, exame ao saber do sr. Dr. Mendes Santos, concluí que era mais sabedor do que eu podia suspeitar”.

 

A Postulação