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Elevando ao Episcopado

A figura moral, intelectual, sacerdotal e apostólica do Cónego Dr. Manuel Mendes da Conceição Santos era de tal projeção no país, pela sua defesa da doutrina católica e da liberdade da Igreja de Jesus Cristo, ante todos e quaisquer tipos de poder que, ao vagar uma sede episcopal, logo o seu nome era apontado como futuro Bispo dessa Diocese. Um exemplo interessante e com alguma piada passa-se em 1914. Qual não é o seu espanto, quando Manuel Mendes lê, no jornal “Legionário Transmontano” que fora eleito Bispo de Bragança…

Imediatamente se apressa a desmentir tal informação e, valendo-se das relações de amizade com antigos condiscípulos, agora ocupando altos cargos na Cúria Romana, a quem pede que haja um desmentido oficial por parte da Santa Sé, ao que lhe é respondido, por um dos seus grandes amigos: “Em resposta à tua carta devo dizer-te que não posso fazer sentir no ‘Legionário Transmontano’ a falsa (ou verdadeira) notícia da tua nomeação para Bispo de Bragança, porque mal conheço o Dr. Fernandes. Será mesmo verdadeiramente falsa tal notícia que hoje foi confirmada pelo ‘Libertá do Porto’? Mas, para te deixar mais contente, escreverei a um amigo de Braga para publicar em ‘Ecos do Minho’ que não está provado que tu sejas nomeado Bispo Bragantino. É o que posso fazer por ti”.

Se, por um lado, esta carta tão enigmática prova que Manuel Mendes não fora indigitado como Bispo de Bragança, por outro lado, contrariamente ao que era o seu maior desejo, também não veio comprovar que nunca seria elevado ao Episcopado…

Enquanto andava à procura do seu lugar (se na vida sacerdotal secular ou se na vida religiosa, ingressando na Companhia de Jesus), – “Destinos de Deus. Um ano antes havia posto pela segunda vez a hipótese de entrar na Companhia de Jesus. A primeira havia sido nas vésperas da sua ordenação sacerdotal” – o Espírito Santo preparava o “novo lugar” para o Cónego Manuel Mendes da Conceição Santos e não era, com toda a certeza, o exercício do seu sacerdócio na Companhia de Jesus nem o seu exercício no ministério presbiteral. Tudo o Espírito Santo orientava para que o seu lugar fosse ao serviço de uma Diocese, não como presbítero, mas sim como Bispo, como era preconizado pela voz do povo de Deus. Nos caminhos da Providência divina estava escrito que, como descreve Francisco Maria da Silva na sua emblemática obra “A Alma do Arcebispo Apóstolo”, “a barca de Pedro se fizesse não rumo ao Norte, para Bragança e outras paragens, mas rumo ao Sul, a Portalegre e a Évora”, o que veio a acontecer a 09 de dezembro de 1915, data em que é assinada, pelo Santo Padre, o Papa Bento XV a Bula de nomeação do Presbítero Manuel Mendes da Conceição Santos como Bispo de Portalegre.

O Senhor, que o chamara ao sacerdócio, fazendo-o, porém, buscador do seu lugar como presbítero da Santa Mãe Igreja, vai mostrando onde seria verdadeiramente o seu lugar, fazendo-o coluna da Igreja, como sucessor dos apóstolos, ao serviço de uma Igreja diocesana, com quem se desposa e por quem dá a sua vida, vivida sempre no limite da condição e do cuidado humanos e da entrega a Deus e aos filhos, que a Igreja lhe concede. Consciente da missão, ainda que não conhecedor das inúmeras e terríveis vicissitudes que teria de viver, confia a sua vida nas mãos do Senhor e da sua “boa e terna Madrinha”, Nossa Senhora, o seu episcopado e o retiro preparatório para a sua sagração episcopal, como se dizia na época, o qual se realizou em Ciudad Rodrigo.

Seguindo o esquema dos exercícios espirituais inacianos adaptados àquela circunstância concreta, o já eleito Bispo de Portalegre, Dom Manuel Mendes da Conceição Santos, fruto da intensidade espiritual e mística com que viveu aquela experiência de Deus, deixa-nos um verdadeiro e extraordinário manual da teologia e espiritualidade do Bispo, com uma profunda atualidade, passados mais de cem anos da sua realização.

Na sua mente e no seu coração, analisava com profunda lucidez o momento histórico que se estava a viver e a missão que lhe era confiada: “nesta hora solene da minha vida: marchar intrépido para o sacrifício com os olhos em Deus. Estamos em tempo de guerra. Um comandante reúne os soldados durante um certo tempo, ensina-lhes o exercício das armas, depois manda-os marchar para a guerra e os soldados vão serenos e impávidos para a morte ou ao menos arriscando-se a ela. Assim devo ser eu. O Senhor chama-me e manda-me ocupar um posto difícil e arriscado”.

A confiança em Deus era a palavra de ordem e a razão de ser de todos os seus propósitos: “Eis-me aqui, envia-me; irei, não quero nem devo ser menos generoso do que os soldados que vão para a guerra. Senhor, para trabalhar, para sofrer, para morrer, eis-me aqui! É assim que eu me quero considerar, como um batalhador que se oferece para morrer, por uma causa tão nobre, por um Senhor tão bom, que nada se lhe pode comparar”.

Dom Manuel Mendes da Conceição é o evangelho vivo, no qual, ao longo de toda a sua vida ao serviço do Evangelho de Jesus Cristo, se pôde ler com que permanente atualidade estes seus propósitos… “não quero nem devo ser menos generoso do que os soldados que vão para a guerra. Senhor, para trabalhar, para sofrer, para morrer, eis-me aqui!”.

A Postulação

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A sua força estava na oração

De onde recebia o Padre Manuel Mendes a força para continuar a lutar, não obstante tantos embates? De onde lhe vinha a luz para ultrapassar os momentos de escuridão? De onde lhe vinha o entusiasmo que o levava a ultrapassar as injúrias vindas de fora e não menos de dentro da Igreja e que ele tão bem conhecia, vivendo como se não existissem? Onde era a fonte da tenacidade que o ajudava a suportar tão grande e exigente missão de levar por diante Cristo e a Sua mensagem a toda a criatura, em tempos tão hostis à Igreja e tão adversos a Jesus Cristo? De onde lhe vinha a robustez para, na fidelidade ao Santo Padre e aos seus ensinamentos, influenciar e apoiar o nascimento do Partido Nacionalista, que se propunha defender a Doutrina Social da Igreja? De onde recebia o ânimo para marcar, com a sua presença nos diversos Congressos, o apoio a este partido? De onde lhe vinha a inspiração e o conhecimento para, mesmo quando teve de fazer uma conferência de forma absolutamente improvisada acerca da ação da Igreja no campo social, como defensora dos pobres e oprimidos, como aconteceu em Braga, em 1909? De onde lhe vinha a capacidade de perdoar a quantos, na refrega com que esclarecia os adversários, o apelidavam de forma pejorativa de “jesuíta”?

A fonte de toda essa vitalidade interior advinha-lhe da estreita união com Jesus Cristo e Sua santíssima Mãe, a quem confiava a sua vida e a sua missão; a quem se oferecia em reparação pelos atos cometidos contra o Coração do Divino Salvador; a quem levava para todos os seus ambientes e situações, nunca faltando, a quem quer que fosse, uma atitude respeitadora e cordial, uma atenção especial e uma palavra delicada e cristã. Tudo isso só era possível porque em Cristo encontrara a Sua razão de viver; com Cristo encontrara a razão de servir e, por Cristo, a razão de sofrer… ainda que, a cada dia que passava, a vida fosse mais difícil.

Para se aquilatar da intensidade da sua vida espiritual, durante estes anos em que audazmente lutou por Deus e pela Pátria na arena difícil da cidade da Guarda, não possuímos infelizmente muitos documentos escritos. As suas obras, todas de fomento da vida sobrenatural, e o testemunho de muitos que receberam o seu benéfico influxo, são o argumento externo que nos confirmam no que temos como axioma: à medida que os dias passavam e que a luta era mais difícil, mais o seu espírito se unia a Deus numa doação total.

É de 7 de junho de 1907, festa do Sagrado Coração de Jesus, a consagração escrita por seu punho, que transcrevemos, porque nos dá a justa medida da sua ascensão espiritual: “Coração dulcíssimo de Jesus, profundamente humilhado e intimamente confundido pela minha ingratidão e mesquinhez para convosco, venho, neste dia, prostrar-me a vossos pés e pedir-vos humildemente perdão. Coração abrasado, não me recusareis de certo esta graça. Eu quisera também compensar-vos das ofensas que neste sacramento sofreis, tendes sofrido e sofrereis de mim e de tantos outros; mas que poderei eu oferecer-vos que seja digno de vós?

Ah! meu Jesus, não permitais que eu vos torne a ofender ou que de vós me afaste. Dai fervor, generosidade, amor ao meu coração, para que ele seja uma vítima imolada por vós. Vejo-me tão fraco, tão inconstante, tão indigno, que não me atrevo a grandes promessas; faço-vos, porém, ó meu Jesus, plena e irrevogável oferta de mim mesmo. Ofereço-me a vós, em honra de Maria e pelas mãos de Maria, para o que vós quiserdes e como vós quiserdes, sem reserva nem condição alguma. Se quereis que eu sofra, seja humilhado e desprezado, tudo isso eu quero por vós, peço-vos, porém, amor para amar isto tudo, porque eu nada posso. Irrevogavelmente a vós me consagro, não quero nada por mim, mas tudo por vós, meu amor supremo.

Ao vosso Coração me consagro, nele quero viver, nele quero morrer para mim e para o mundo. Já não pertenço a mim mesmo, fazei de mim o que vos aprouver. Abençoai o meu sacerdócio, abençoai a minha missão nesta casa, abençoai os seminaristas que me confiastes, abençoai o meu Prelado, abençoai os meus parentes, e tomai posse de mim. Ó Jesus, amor e só amor!”

A Postulação

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Na formação do laicado

O jornalista insigne Joaquim Dinis da Fonseca, em jeito de testemunho, apresenta, de forma bastante esclarecedora, a missão do Padre Manuel Mendes na formação de uma Igreja consciente e responsável: «Quando o conheci, era eu menino e moço e tinha à minha volta todas as consequências sociais e todas as perversões sociais do liberalismo: o arrefecimento da fé católica ancestral, a invasão naturalista e paganizadora, a indisciplina e o descrédito da autoridade civil e religiosa, o culto idolátrico do estrangeiro e o vilipêndio de tudo o que ainda era português! Foi neste meio e nesta atmosfera que teve de atuar o apostolado cristão do então novel sacerdote P. Mendes dos Santos.

Recordo-me do primeiro artigo escrito, pelo recém-chegado reitor do Seminário, para a revistinha, A Guarda, precursora do que viria a ser, com o mesmo título, o glorioso órgão da imprensa católica. Esse artigo glosava uma velha lamentação suscitada pela invasão agarena na Península, arrasadora da antiga florescência cristã. Quem é hoje ainda cristão e godo nestas terras pisadas pelas hostes agarenas! Perante a invasão maçónica que avançava, o Padre Mendes Santos exclamava por seu turno: quem há aí ainda católico e português nestas terras outrora de Santa Maria?!…

Desse artigo podia extrair-se todo o programa que o novo Reitor do Seminário se propunha executar, com acendrado espírito sobrenatural e ascético fervor: era preciso renovar as fontes sobrenaturais do cristianismo do nosso país; era preciso libertar a Igreja das gargalheiras regalistas que a asfixiavam; era preciso renovar a velha alma nacional, que fizera toda a nossa grandeza histórica, renovando o conceito da autoridade e o respeito e cooperação que lhe são devidos, contra os fermentos desagregadores da anarquia individualista; renovar o conceito de justiça social e de caridade social de que a vida portuguesa fora exemplo, contra os fermentos da desordem económica e financeira que haviam empobrecido a nação e feito o seu descrédito no mundo! A Providência chamava-o para mestre e orientador deste movimento, embora poucos o pudessem suspeitar, ao vê-lo tomar conta da reforma de um seminário provinciano!

Essa missão de que a Providência o incumbira, exerceu-a até ao fim, com insuperável inteligência e intemerata fidelidade, restaurador do espírito eclesiástico, como Reitor do Seminário da Guarda; impulsionador do movimento em favor da independência e liberdade da Igreja, contra o regalismo, ou cesarismo disfarçado, fingindo este dar apoio às regalias episcopais contra a autoridade da Santa Sé, para, no fundo, acorrentar sacerdotes e Bispos à tirania balofa de um poder civil cuja autoridade desservia os interesses da Pátria e afundava o prestígio da Nação!

Em todos estes lances, a Igreja encontrou, em D. Manuel da Conceição Santos, o Mestre e orientador arguto e intemerato na defesa das liberdades da Igreja, contra os que as negavam, ou falsamente as defendiam, fazendo delas apenas trampolim político!

A sua formação eclesiástica fora completa e doutrinalmente esclarecida; a sua atividade sacerdotal sempre iluminada pelos esplendores de um espírito sobrenatural incorruptível; a sua autoridade de professor e de Prelado sempre atenta aos ensinamentos, advertência e diretrizes da Igreja, fazendo dele um guia sempre pronto e seguro, um Mestre sempre escutado, um Chefe sempre acolhido com respeito, nas horas perturbadas e trágicas em que a Autoridade da Igreja foi abertamente negada por uns, e respeitosamente desacatada por outros, numa rebelião perturbadora da disciplina católica e da própria unidade da fé!»

A Postulação