A sua força estava na oração

De onde recebia o Padre Manuel Mendes a força para continuar a lutar, não obstante tantos embates? De onde lhe vinha a luz para ultrapassar os momentos de escuridão? De onde lhe vinha o entusiasmo que o levava a ultrapassar as injúrias vindas de fora e não menos de dentro da Igreja e que ele tão bem conhecia, vivendo como se não existissem? Onde era a fonte da tenacidade que o ajudava a suportar tão grande e exigente missão de levar por diante Cristo e a Sua mensagem a toda a criatura, em tempos tão hostis à Igreja e tão adversos a Jesus Cristo? De onde lhe vinha a robustez para, na fidelidade ao Santo Padre e aos seus ensinamentos, influenciar e apoiar o nascimento do Partido Nacionalista, que se propunha defender a Doutrina Social da Igreja? De onde recebia o ânimo para marcar, com a sua presença nos diversos Congressos, o apoio a este partido? De onde lhe vinha a inspiração e o conhecimento para, mesmo quando teve de fazer uma conferência de forma absolutamente improvisada acerca da ação da Igreja no campo social, como defensora dos pobres e oprimidos, como aconteceu em Braga, em 1909? De onde lhe vinha a capacidade de perdoar a quantos, na refrega com que esclarecia os adversários, o apelidavam de forma pejorativa de “jesuíta”?

A fonte de toda essa vitalidade interior advinha-lhe da estreita união com Jesus Cristo e Sua santíssima Mãe, a quem confiava a sua vida e a sua missão; a quem se oferecia em reparação pelos atos cometidos contra o Coração do Divino Salvador; a quem levava para todos os seus ambientes e situações, nunca faltando, a quem quer que fosse, uma atitude respeitadora e cordial, uma atenção especial e uma palavra delicada e cristã. Tudo isso só era possível porque em Cristo encontrara a Sua razão de viver; com Cristo encontrara a razão de servir e, por Cristo, a razão de sofrer… ainda que, a cada dia que passava, a vida fosse mais difícil.

Para se aquilatar da intensidade da sua vida espiritual, durante estes anos em que audazmente lutou por Deus e pela Pátria na arena difícil da cidade da Guarda, não possuímos infelizmente muitos documentos escritos. As suas obras, todas de fomento da vida sobrenatural, e o testemunho de muitos que receberam o seu benéfico influxo, são o argumento externo que nos confirmam no que temos como axioma: à medida que os dias passavam e que a luta era mais difícil, mais o seu espírito se unia a Deus numa doação total.

É de 7 de junho de 1907, festa do Sagrado Coração de Jesus, a consagração escrita por seu punho, que transcrevemos, porque nos dá a justa medida da sua ascensão espiritual: “Coração dulcíssimo de Jesus, profundamente humilhado e intimamente confundido pela minha ingratidão e mesquinhez para convosco, venho, neste dia, prostrar-me a vossos pés e pedir-vos humildemente perdão. Coração abrasado, não me recusareis de certo esta graça. Eu quisera também compensar-vos das ofensas que neste sacramento sofreis, tendes sofrido e sofrereis de mim e de tantos outros; mas que poderei eu oferecer-vos que seja digno de vós?

Ah! meu Jesus, não permitais que eu vos torne a ofender ou que de vós me afaste. Dai fervor, generosidade, amor ao meu coração, para que ele seja uma vítima imolada por vós. Vejo-me tão fraco, tão inconstante, tão indigno, que não me atrevo a grandes promessas; faço-vos, porém, ó meu Jesus, plena e irrevogável oferta de mim mesmo. Ofereço-me a vós, em honra de Maria e pelas mãos de Maria, para o que vós quiserdes e como vós quiserdes, sem reserva nem condição alguma. Se quereis que eu sofra, seja humilhado e desprezado, tudo isso eu quero por vós, peço-vos, porém, amor para amar isto tudo, porque eu nada posso. Irrevogavelmente a vós me consagro, não quero nada por mim, mas tudo por vós, meu amor supremo.

Ao vosso Coração me consagro, nele quero viver, nele quero morrer para mim e para o mundo. Já não pertenço a mim mesmo, fazei de mim o que vos aprouver. Abençoai o meu sacerdócio, abençoai a minha missão nesta casa, abençoai os seminaristas que me confiastes, abençoai o meu Prelado, abençoai os meus parentes, e tomai posse de mim. Ó Jesus, amor e só amor!”

A Postulação

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