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Vantagens e desvantagens de ser Padre Diocesano

Estamos num momento conturbado na vida de Manuel Mendes da Conceição Santos. Por um lado, o seu coração pedia-lhe que considerasse o seu lugar ao serviço da Igreja (pela segunda vez, a procura do seu lugar entre ser padre diocesano ou padre secular inquieta a sua alma); por outro lado, a sua figura moral, intelectual, sacerdotal e apostólica era de tal projeção nacional que, ao vagar uma sede episcopal, o seu nome entrava imediatamente no grupo dos possíveis bispos daquela diocese. Se quanto ao lugar onde viver e exercer o ministério sacerdotal ele andava muito confuso, quanto ao chamamento ao episcopado estava profundamente lúcido, considerando que não tinha capacidades para exercer tal ministério… Por isso, em atitude de retiro espiritual, pedia as luzes ao Espírito sobre o lugar do seu sacerdócio e, de “entreajuda eclesial”, valeu-se dos seus conhecimentos para apresentar a sua “auto-incapacidade”, apelando a que se desmentissem publicamente as notícias acerca da possibilidade de ser Bispo…

Neste momento difícil para si, Manuel Mendes vai apontando as vantagens e as desvantagens de ser padre diocesano e padre jesuíta. Deixemos, pois, que seja a sua alma a escrever os próximos artigos e a nos apresentar as vantagens e desvantagens de continuar a ser padre diocesano:

“Vantagens, sendo sacerdote secular: 1ª, poderia, com o auxílio de Deus, fazer bem às almas dos futuros sacerdotes no Seminário de Santarém, procurando incutir-lhes as ideias que em Roma me foram inspiradas; 2ª, poderia concorrer para dar aos estudos teológicos uma orientação mais conforme à sua índole que a que se segue em Portugal; 3ª, se o meu Prelado me mandasse para a vida paroquial, poderia fazer algum bem ao povo com algumas novas práticas que se usam lá fora, ou me fossem sugeridas por algum bom livro; 4ª, poderia, se Nosso Senhor me inspirasse a isso, fazer algumas tentativas para introduzir as missões de sacerdotes seculares, os quais tantos frutos produzem lá fora; 5ª, com o ministério do confessionário poderia fazer grande bem às almas em Santarém e em Torres Novas; 6ª, concorreria por agora com conselhos e com a minha companhia para o bem espiritual de meu irmão; 7ª, tendo liberdade, poderia ir ora a umas ora a outras terras, tendo para isso oportunidade, e aí exercitar o ministério de pregação e do confessionário; 8ª, tendo sido mandado estudar a Roma para servir a Diocese, eu não devo talvez escolher um estado que me poderá impedir de prestar aqueles serviços que o Prelado de mim esperava; 9ª, o Santo Padre disse-me que viesse para Portugal trabalhar pelo movimento católico, pois havia cá falta dele. Ora, sendo religioso não poderia corresponder ao que o Santo Padre mostrou querer de mim”. 

Porém, também há, segundo o seu coração, desvantagens em ser Padre diocesano e são elas: “1ª, terei que me ocupar de negócios temporais ou por causa da família ou para prover à minha sustentação; 2ª, corro muito risco de me dar à dissipação já pela convivência com a gente do mundo, já pelos exemplos pouco edificantes de alguns sacerdotes; 3ª, dificilmente me poderei eximir dos inconvenientes que trazem consigo os concursos a benefícios, atento o modo como se dão os benefícios em Portugal; 4ª, terei ocasião de satisfazer uma certa ambiçãozinha de honras e dignidades que sinto, embora diga que quero ser humilde; 5ª, uma das razões que me leva a querer ficar no estado de sacerdote secular é um certo desejo que tenho de estar no que, relativamente a este estado, se poderia chamar o grande mundo”. 

Quando uma alma é de Deus, não tem medo da verdade de si mesmo!…

A Postulação

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Elevando ao Episcopado

A figura moral, intelectual, sacerdotal e apostólica do Cónego Dr. Manuel Mendes da Conceição Santos era de tal projeção no país, pela sua defesa da doutrina católica e da liberdade da Igreja de Jesus Cristo, ante todos e quaisquer tipos de poder que, ao vagar uma sede episcopal, logo o seu nome era apontado como futuro Bispo dessa Diocese. Um exemplo interessante e com alguma piada passa-se em 1914. Qual não é o seu espanto, quando Manuel Mendes lê, no jornal “Legionário Transmontano” que fora eleito Bispo de Bragança…

Imediatamente se apressa a desmentir tal informação e, valendo-se das relações de amizade com antigos condiscípulos, agora ocupando altos cargos na Cúria Romana, a quem pede que haja um desmentido oficial por parte da Santa Sé, ao que lhe é respondido, por um dos seus grandes amigos: “Em resposta à tua carta devo dizer-te que não posso fazer sentir no ‘Legionário Transmontano’ a falsa (ou verdadeira) notícia da tua nomeação para Bispo de Bragança, porque mal conheço o Dr. Fernandes. Será mesmo verdadeiramente falsa tal notícia que hoje foi confirmada pelo ‘Libertá do Porto’? Mas, para te deixar mais contente, escreverei a um amigo de Braga para publicar em ‘Ecos do Minho’ que não está provado que tu sejas nomeado Bispo Bragantino. É o que posso fazer por ti”.

Se, por um lado, esta carta tão enigmática prova que Manuel Mendes não fora indigitado como Bispo de Bragança, por outro lado, contrariamente ao que era o seu maior desejo, também não veio comprovar que nunca seria elevado ao Episcopado…

Enquanto andava à procura do seu lugar (se na vida sacerdotal secular ou se na vida religiosa, ingressando na Companhia de Jesus), – “Destinos de Deus. Um ano antes havia posto pela segunda vez a hipótese de entrar na Companhia de Jesus. A primeira havia sido nas vésperas da sua ordenação sacerdotal” – o Espírito Santo preparava o “novo lugar” para o Cónego Manuel Mendes da Conceição Santos e não era, com toda a certeza, o exercício do seu sacerdócio na Companhia de Jesus nem o seu exercício no ministério presbiteral. Tudo o Espírito Santo orientava para que o seu lugar fosse ao serviço de uma Diocese, não como presbítero, mas sim como Bispo, como era preconizado pela voz do povo de Deus. Nos caminhos da Providência divina estava escrito que, como descreve Francisco Maria da Silva na sua emblemática obra “A Alma do Arcebispo Apóstolo”, “a barca de Pedro se fizesse não rumo ao Norte, para Bragança e outras paragens, mas rumo ao Sul, a Portalegre e a Évora”, o que veio a acontecer a 09 de dezembro de 1915, data em que é assinada, pelo Santo Padre, o Papa Bento XV a Bula de nomeação do Presbítero Manuel Mendes da Conceição Santos como Bispo de Portalegre.

O Senhor, que o chamara ao sacerdócio, fazendo-o, porém, buscador do seu lugar como presbítero da Santa Mãe Igreja, vai mostrando onde seria verdadeiramente o seu lugar, fazendo-o coluna da Igreja, como sucessor dos apóstolos, ao serviço de uma Igreja diocesana, com quem se desposa e por quem dá a sua vida, vivida sempre no limite da condição e do cuidado humanos e da entrega a Deus e aos filhos, que a Igreja lhe concede. Consciente da missão, ainda que não conhecedor das inúmeras e terríveis vicissitudes que teria de viver, confia a sua vida nas mãos do Senhor e da sua “boa e terna Madrinha”, Nossa Senhora, o seu episcopado e o retiro preparatório para a sua sagração episcopal, como se dizia na época, o qual se realizou em Ciudad Rodrigo.

Seguindo o esquema dos exercícios espirituais inacianos adaptados àquela circunstância concreta, o já eleito Bispo de Portalegre, Dom Manuel Mendes da Conceição Santos, fruto da intensidade espiritual e mística com que viveu aquela experiência de Deus, deixa-nos um verdadeiro e extraordinário manual da teologia e espiritualidade do Bispo, com uma profunda atualidade, passados mais de cem anos da sua realização.

Na sua mente e no seu coração, analisava com profunda lucidez o momento histórico que se estava a viver e a missão que lhe era confiada: “nesta hora solene da minha vida: marchar intrépido para o sacrifício com os olhos em Deus. Estamos em tempo de guerra. Um comandante reúne os soldados durante um certo tempo, ensina-lhes o exercício das armas, depois manda-os marchar para a guerra e os soldados vão serenos e impávidos para a morte ou ao menos arriscando-se a ela. Assim devo ser eu. O Senhor chama-me e manda-me ocupar um posto difícil e arriscado”.

A confiança em Deus era a palavra de ordem e a razão de ser de todos os seus propósitos: “Eis-me aqui, envia-me; irei, não quero nem devo ser menos generoso do que os soldados que vão para a guerra. Senhor, para trabalhar, para sofrer, para morrer, eis-me aqui! É assim que eu me quero considerar, como um batalhador que se oferece para morrer, por uma causa tão nobre, por um Senhor tão bom, que nada se lhe pode comparar”.

Dom Manuel Mendes da Conceição é o evangelho vivo, no qual, ao longo de toda a sua vida ao serviço do Evangelho de Jesus Cristo, se pôde ler com que permanente atualidade estes seus propósitos… “não quero nem devo ser menos generoso do que os soldados que vão para a guerra. Senhor, para trabalhar, para sofrer, para morrer, eis-me aqui!”.

A Postulação

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A sua força estava na oração

De onde recebia o Padre Manuel Mendes a força para continuar a lutar, não obstante tantos embates? De onde lhe vinha a luz para ultrapassar os momentos de escuridão? De onde lhe vinha o entusiasmo que o levava a ultrapassar as injúrias vindas de fora e não menos de dentro da Igreja e que ele tão bem conhecia, vivendo como se não existissem? Onde era a fonte da tenacidade que o ajudava a suportar tão grande e exigente missão de levar por diante Cristo e a Sua mensagem a toda a criatura, em tempos tão hostis à Igreja e tão adversos a Jesus Cristo? De onde lhe vinha a robustez para, na fidelidade ao Santo Padre e aos seus ensinamentos, influenciar e apoiar o nascimento do Partido Nacionalista, que se propunha defender a Doutrina Social da Igreja? De onde recebia o ânimo para marcar, com a sua presença nos diversos Congressos, o apoio a este partido? De onde lhe vinha a inspiração e o conhecimento para, mesmo quando teve de fazer uma conferência de forma absolutamente improvisada acerca da ação da Igreja no campo social, como defensora dos pobres e oprimidos, como aconteceu em Braga, em 1909? De onde lhe vinha a capacidade de perdoar a quantos, na refrega com que esclarecia os adversários, o apelidavam de forma pejorativa de “jesuíta”?

A fonte de toda essa vitalidade interior advinha-lhe da estreita união com Jesus Cristo e Sua santíssima Mãe, a quem confiava a sua vida e a sua missão; a quem se oferecia em reparação pelos atos cometidos contra o Coração do Divino Salvador; a quem levava para todos os seus ambientes e situações, nunca faltando, a quem quer que fosse, uma atitude respeitadora e cordial, uma atenção especial e uma palavra delicada e cristã. Tudo isso só era possível porque em Cristo encontrara a Sua razão de viver; com Cristo encontrara a razão de servir e, por Cristo, a razão de sofrer… ainda que, a cada dia que passava, a vida fosse mais difícil.

Para se aquilatar da intensidade da sua vida espiritual, durante estes anos em que audazmente lutou por Deus e pela Pátria na arena difícil da cidade da Guarda, não possuímos infelizmente muitos documentos escritos. As suas obras, todas de fomento da vida sobrenatural, e o testemunho de muitos que receberam o seu benéfico influxo, são o argumento externo que nos confirmam no que temos como axioma: à medida que os dias passavam e que a luta era mais difícil, mais o seu espírito se unia a Deus numa doação total.

É de 7 de junho de 1907, festa do Sagrado Coração de Jesus, a consagração escrita por seu punho, que transcrevemos, porque nos dá a justa medida da sua ascensão espiritual: “Coração dulcíssimo de Jesus, profundamente humilhado e intimamente confundido pela minha ingratidão e mesquinhez para convosco, venho, neste dia, prostrar-me a vossos pés e pedir-vos humildemente perdão. Coração abrasado, não me recusareis de certo esta graça. Eu quisera também compensar-vos das ofensas que neste sacramento sofreis, tendes sofrido e sofrereis de mim e de tantos outros; mas que poderei eu oferecer-vos que seja digno de vós?

Ah! meu Jesus, não permitais que eu vos torne a ofender ou que de vós me afaste. Dai fervor, generosidade, amor ao meu coração, para que ele seja uma vítima imolada por vós. Vejo-me tão fraco, tão inconstante, tão indigno, que não me atrevo a grandes promessas; faço-vos, porém, ó meu Jesus, plena e irrevogável oferta de mim mesmo. Ofereço-me a vós, em honra de Maria e pelas mãos de Maria, para o que vós quiserdes e como vós quiserdes, sem reserva nem condição alguma. Se quereis que eu sofra, seja humilhado e desprezado, tudo isso eu quero por vós, peço-vos, porém, amor para amar isto tudo, porque eu nada posso. Irrevogavelmente a vós me consagro, não quero nada por mim, mas tudo por vós, meu amor supremo.

Ao vosso Coração me consagro, nele quero viver, nele quero morrer para mim e para o mundo. Já não pertenço a mim mesmo, fazei de mim o que vos aprouver. Abençoai o meu sacerdócio, abençoai a minha missão nesta casa, abençoai os seminaristas que me confiastes, abençoai o meu Prelado, abençoai os meus parentes, e tomai posse de mim. Ó Jesus, amor e só amor!”

A Postulação

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Na formação do laicado

O jornalista insigne Joaquim Dinis da Fonseca, em jeito de testemunho, apresenta, de forma bastante esclarecedora, a missão do Padre Manuel Mendes na formação de uma Igreja consciente e responsável: «Quando o conheci, era eu menino e moço e tinha à minha volta todas as consequências sociais e todas as perversões sociais do liberalismo: o arrefecimento da fé católica ancestral, a invasão naturalista e paganizadora, a indisciplina e o descrédito da autoridade civil e religiosa, o culto idolátrico do estrangeiro e o vilipêndio de tudo o que ainda era português! Foi neste meio e nesta atmosfera que teve de atuar o apostolado cristão do então novel sacerdote P. Mendes dos Santos.

Recordo-me do primeiro artigo escrito, pelo recém-chegado reitor do Seminário, para a revistinha, A Guarda, precursora do que viria a ser, com o mesmo título, o glorioso órgão da imprensa católica. Esse artigo glosava uma velha lamentação suscitada pela invasão agarena na Península, arrasadora da antiga florescência cristã. Quem é hoje ainda cristão e godo nestas terras pisadas pelas hostes agarenas! Perante a invasão maçónica que avançava, o Padre Mendes Santos exclamava por seu turno: quem há aí ainda católico e português nestas terras outrora de Santa Maria?!…

Desse artigo podia extrair-se todo o programa que o novo Reitor do Seminário se propunha executar, com acendrado espírito sobrenatural e ascético fervor: era preciso renovar as fontes sobrenaturais do cristianismo do nosso país; era preciso libertar a Igreja das gargalheiras regalistas que a asfixiavam; era preciso renovar a velha alma nacional, que fizera toda a nossa grandeza histórica, renovando o conceito da autoridade e o respeito e cooperação que lhe são devidos, contra os fermentos desagregadores da anarquia individualista; renovar o conceito de justiça social e de caridade social de que a vida portuguesa fora exemplo, contra os fermentos da desordem económica e financeira que haviam empobrecido a nação e feito o seu descrédito no mundo! A Providência chamava-o para mestre e orientador deste movimento, embora poucos o pudessem suspeitar, ao vê-lo tomar conta da reforma de um seminário provinciano!

Essa missão de que a Providência o incumbira, exerceu-a até ao fim, com insuperável inteligência e intemerata fidelidade, restaurador do espírito eclesiástico, como Reitor do Seminário da Guarda; impulsionador do movimento em favor da independência e liberdade da Igreja, contra o regalismo, ou cesarismo disfarçado, fingindo este dar apoio às regalias episcopais contra a autoridade da Santa Sé, para, no fundo, acorrentar sacerdotes e Bispos à tirania balofa de um poder civil cuja autoridade desservia os interesses da Pátria e afundava o prestígio da Nação!

Em todos estes lances, a Igreja encontrou, em D. Manuel da Conceição Santos, o Mestre e orientador arguto e intemerato na defesa das liberdades da Igreja, contra os que as negavam, ou falsamente as defendiam, fazendo delas apenas trampolim político!

A sua formação eclesiástica fora completa e doutrinalmente esclarecida; a sua atividade sacerdotal sempre iluminada pelos esplendores de um espírito sobrenatural incorruptível; a sua autoridade de professor e de Prelado sempre atenta aos ensinamentos, advertência e diretrizes da Igreja, fazendo dele um guia sempre pronto e seguro, um Mestre sempre escutado, um Chefe sempre acolhido com respeito, nas horas perturbadas e trágicas em que a Autoridade da Igreja foi abertamente negada por uns, e respeitosamente desacatada por outros, numa rebelião perturbadora da disciplina católica e da própria unidade da fé!»

A Postulação

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Na formação de uma Igreja consciente e responsável

A missão do Padre Manuel Mendes que mais deixou marca na Diocese da Guarda foi, sem dúvida, por um lado, a de vice-reitor do Seminário diocesano e impulsionador da obra das vocações, por outro lado, a de governador na prática dessa mesma Diocese. Porém, como alguém afirmou um dia, “as paredes do Seminário não eram capazes de reter cativo o espírito do Vice-Reitor”.

Impelido pela missão de levar a Boa Nova a todos os que, naquele contexto histórico e social tão adverso à Igreja e à doutrina deixada por Jesus Cristo, fez-se voz e testemunho de Cristo na vida dos homens. Rezou e fez rezar, anunciou e viveu o que propôs a cada cristão: encontrar-se com o Senhor na oração, encontrar o Senhor na caridade. Com o objetivo de levar cada cristão à vida de oração, tudo fez para que, em cada Paróquia, existisse um centro do Apostolado de Oração, criando onde não existia e animando os decaídos; onde era possível, fundava a Associação das Filhas de Maria e, ante a pobreza existente, porque a “fé sem obras é morta”, fundou a obra do Agasalho dos Pobres, como consequência prática dos ensinamentos do Papa Leão XIII, apresentados através da Encíclica Rerum Novarum, com a qual se iniciou, de forma organiza e esquematizada,  a Doutrina Social da Igreja, a ponto de, pelos grupos mais conservadores da sociedade egitaniense, ser apelidado de “Socialista”.

Convencido do prodigioso poder da Imprensa para a difusão dos ensinamentos da Igreja, dedicou-se, de alma e coração, ao jornalismo onde a sua ação foi ainda mais saliente: nesta fase da sua vida, colaborou na revista Estudos Sociais de Coimbra e no jornal diário Novidades e fundou o jornal diocesano “A Guarda” e, para que os seminaristas aprendessem a importância do jornalismo e dessem os primeiros passos nesta ciência, fundo o jornal A Abelha.

Como jornalista, anotam os Anais Torrejanos, “bem conhecido é o valor e o brilhantismo da sua pena” e o jornal A Guarda, numa homenagem ao Padre Manuel Mendes, escreve: “durante anos foi ele que escreveu todos os artigos de orientação e de responsabilidade aí publicados como foi ele quem sempre dirigiu o jornal. À sua proficiente direção se devem, pois, os magníficos triunfos que A Guarda conta no seu passado e as gloriosas tradições que ilustram a sua vida”.

Manuel Mendes não foi apenas  diretor, mas também “um intemerato batalhador, mestre dos mestres do jornalismo  e, em larga medida, o criador do jornalismo católico, no sentido com que a Santa Sé o definiu e o Patriarca de Lisboa um dia explicou: com a eloquente gentileza que é timbre do seu talento oratório e padrão da sua sapiente prudência literária, foi um príncipe dos jornalistas, na vastidão da cultura, na técnica da composição, no desinteresse pessoal, no zelo ardente das altas e nobres ideias que a Igreja representa, defende e espalha”, como Francisco Maria da Silva, seu biógrafo, realça na obra “Alma do Arcebispo Apóstolo”. Também o jornal A Guarda, num dos seus números do ano de 1956, refere que “desde o princípio, ainda que as afanosas lides lhe roubassem o tempo, estivesse longe ou perto, sempre o seu primeiro pensamento, o seu mais útil trabalho era o jornal, certo de que, hoje como ontem, é à imprensa, mais que aos tablados dos comícios e mesmo às grades dos púlpitos, se deve o melhor quinhão na evangelização social do povo”.

Para suportar os preços da edição do jornal e não depender de qualquer outra reprografia, ousou o Padre Manuel Mendes criar a empresa “Veritas” e a ela dedicou toda a sua alma e todos os recursos da sua vastíssima inteligência. Pode mesmo afirma-se que terá sido umas das suas melhores e mais perduráveis obras.

No intuito de criar o gosto pela necessidade da evangelização, o Padre Manuel Mendes, nos princípios de dezembro de 1905, ou seja, pouco tempo após chegar à diocese da Guarda, levou por diante a realização do primeiro Congresso da história da Igreja em Portugal sobre a Catequese, motivado pela belíssima Encíclica “Acerbo Nimis” do Papa Pio X, onde apresenta à Igreja egitaniense o célebre “Catecismo de São Pio X” e profere uma conferência subordinada ao tema “Pio X e o Catecismo”. E, na continuidade deste trabalho em prol da catequização de todas as faixas etárias, traduz e adapta à realidade portuguesa o famoso “Compêndio da Doutrina Cristã”, o qual formou cristãmente tantos católicos durante décadas e décadas.

A Postulação

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No governo da Diocese

A perseguição à Igreja não desarmava. Dirigia-se principalmente contra o episcopado, sobretudo devido à sua reação contra a Lei da Separação da Igreja do Estado, pela forma como se encontrava redigida. Prevendo tempos difíceis e anormais para o governo da Diocese, D. Manuel Vieira de Matos, depois de, em 1909, por proposta sua ao rei D. Manuel II, conforme os costumes da época, o padre Manuel Mendes ter recebido o canonicato, decidiu nomear três governadores para a Diocese: os cónegos Barbas Freire, António Augusto Lopes e Manuel Mendes da Conceição Santos; e a razão está bem patente na Provisão de nomeação de 1911: “… para no caso de nos vermos forçado a deixar a diocese ou de sermos impedido de a administrar” porque, como refere D. Manuel Vieira de Matos no mesmo documento, é necessário “providenciar à regular administração da nossa Diocese na época anormal que a Igreja vai atravessando no nosso País”.

Afirma Francisco Maria da Silva na grande Alma do Arcebispo Apóstolo que “embora juridicamente seja o reverendo cónego Barbas Freire o governador, de facto, quem exerceu esse múnus foi o cónego Mendes dos Santos. São centenas as cartas que se conservam do Arcebispo exilado para o ‘Senhor Reitor’, tratando os mais variados assuntos relativos à Diocese, aos padres, ao apostolado em geral. Como centenas são as cartas recebidas por ele de sacerdotes, muitas repletas de pessimismo e do desânimo que lhes ia na alma. A todos encorajava, fortalecia, traçava normas com caridade, prudência e firmeza. E a todos defendia, sobretudo aos que eram perseguidos por amor da Igreja.

Pode mesmo afirmar-se que, nos momentos difíceis que a revolução de 5 de outubro de 1910 trouxe à vida das dioceses em Portugal, o Cónego Mendes Santos esteve à altura das circunstâncias na luta intrépida pelos direitos da Igreja, como bem se compreende ao ler-se a transcrição da sua intervenção em pleno tribunal em defesa de um sacerdote, da qual ousamos transcrever alguns excertos: “Pela primeira vez, nos anais deste tribunal, se viu um luzido grupo de Senhoras da primeira sociedade de Trancoso, a assistir a uma audiência. Gentilmente o senhor juiz mandou-lhes oferecer cadeiras adentro da teia, onde se viam também numerosos advogados e cavalheiros dos mais distintos da vila”.

“Quem afinava também de grande era o senhor administrador do concelho cuja ciência canónica não emparceira com o brilho do seu apelido e com ele a igrejinha doméstica, incluindo o infeliz sacerdote que se prestara a esta burla. Contra esse padre foi instaurado processo na cúria episcopal, por causa de gravíssima irregularidade que praticava”.

“Reaberta a audiência continuou a ser inquirido o senhor dr. Mendes Santos, ou melhor, continuou o debate entre o sr. dr. Delegado e esta testemunha, sobre o assunto que fora discutido na véspera. Por vezes a discussão acalorou-se, tornou-se palpitante, apaixonando o público que a ia seguindo com avidez, manifestada no religioso silêncio com que era escutada; e terminou após uma hora e meia, durante a qual, sempre com delicadeza irrepreensível e numa forma elevada se trocaram de parte a parte rijos botes de argumentação”.

“E voltando ao ponto de partida, como o sr. dr. Delegado tivesse aludido à possibilidade de o arguido ter desacatado as leis da República, o sr. dr. Mendes Santos disse que a República, pela letra da Constituição, garante a liberdade de consciência e esta supunha a liberdade integral da religião; mas se um dia uma lei pretendesse ingerir-se no domínio da sua consciência e impedir-lhe a prática da religião que professa e ama, ele sujeitar-se-ia às penalidades da lei, mas não atraiçoaria por ele a sua consciência e a sua religião”.

Palavras proféticas.

Junho de 1923

A Postulação

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Vice-Reitor do Seminário da Guarda

Tempos difíceis para a Igreja: arrombavam-se as portas dos templos, violavam-se os sacrários, mutilavam-se as imagens sacras, espoliavam-se os bens da Igreja, perseguiam-se os sacerdotes e os bispos, afastavam-se os fiéis do culto comunitário e vigiava-se o culto familiar e privado. É neste contexto que, em abril de 1903, Dom Manuel Vieira de Matos é nomeado Bispo da Guarda. Levava como plano pastoral para aquela diocese formar solidamente o clero, animar a Pastoral Juvenil e fortalecer o apostolado no meio operário.

Um plano tão divinamente ambicioso como humanamente impraticável neste contexto histórico. A não ser que, a seu lado, tivesse um colaborador tão inteligente como modesto, tão ativo com contemplativo ou sobrenatural, tão competente como afetivo… Com estas caraterísticas Dom Manuel Vieira de Matos, dos tempos de Bispo Auxiliar de Lisboa, só conhecia um sacerdote, na diocese de Lisboa, oriundo dos lados de Torres Novas e que estava a exercer o seu ministério no Seminário patriarcal de Santarém como professor, o Padre Manuel Mendes da Conceição Santos.

Havia, porém, um problema: esse sacerdote, porque era da diocese de Lisboa, só poderia ser deslocado para a diocese da Guarda se o Cardeal Patriarca o permitisse, o que percebeu, por resposta a cartas suas que era impossível, o que o levou a recorrer às mais altas instâncias eclesiásticas e a um diálogo muito pouco cordial, até que Dom José Sebastião Neto finalmente acedeu enviar o Padre Manuel Mendes para a Guarda, a fim de assumir a formação do futuro clero daquela diocese. Com a responsabilidade de ser “vice-reitor do Seminário da Guarda”, chega àquela cidade episcopal, sob os auspícios da Santíssima Virgem, sua “boa e querida madrinha”, no dia 8 de setembro de 1905 e, com ele, a fama que o acompanhava de cavaleiro ilustre, sacerdote exemplar e professor cheio de mérito.

As instruções recebidas do Bispo diocesano e a personalidade do Vice-Reitor do Seminário, alicerçada numa sólida piedade, numa vida disciplinar perfeita e de uma nítida compreensão da alta e exigente missão sacerdotal, foram influenciando a decisão livre e responsável de cada um dos candidatos ao sacerdócio que, não revelando quaisquer aptidões, fossem pedindo para abandonar aquela instituição. Ao mesmo que internamente cuidava da disciplina da comunidade residente no Seminário, exteriormente defendia a sua honra, os seus direitos e os seus formadores e formandos. Provam-no a carta por si enviada ao “Jornal do Povo”, em 1912, a fim de corrigir algumas afirmações que punham em causa a seriedade dos sacerdotes ali residentes e com missão formativa, através da qual deixa os seguintes esclarecimentos: “todos eles são dignos, de comprovada honradez e probidade, incapazes de abusar do seu ministério (no que aliás, cometeriam um crime gravíssimo) e eu prezo-me também de ter a hombridade necessária para não admitir infâmias desta ou doutra espécie”.

E quando tentam pôr em causa a parcialidade do Vice-Reitor, este responde com toda a firmeza: “dessas informações assumo toda a responsabilidade, desde que tenham sido dadas por mim, pois me guio sempre pela minha consciência e assim espero continuar a fazer, aconteça o que acontecer. Dos meus atos estou pronto a dar contas a quem tenha direito de mas pedir; os motivos que imperam no meu ânimo ao dar qualquer informação não posso nem devo assoalhá-las em público, proíbe-mo a dignidade e o respeito que devo às minhas funções e ao bom nome alheio”.

Estas injúrias vindas de fora e de dentro da Igreja eram simplesmente fruto do desejo de esvaziar a Igreja da sua moralidade com o intuito de, com justificação, encerrar o Seminário, o que veio a acontecer, sem motivo algum, a 28 de outubro de 1914, através de uma intimação na qual estava escrito que o Vice-Reitor deveria enviar os alunos para casa, despedir os formadores, abandonar a casa, entregar as chaves… depois de a 15 de abril de 1913, terem encerrado a sua Igreja e proibido o culto. Porém, não se deixou o Padre Manuel Mendes quebrar ante tal decisão e, a 30 de dezembro do mesmo ano, já estava a celebrar a Eucaristia num edifício, no Fundão, para onde iria, a partir de janeiro de 1915, o “Internato Académico” (Seminário da Guarda) com 25 alunos (seminaristas)…

A Postulação

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Os primeiros anos ao serviço do Reino

Ordenado Presbítero, Manuel Mendes continua a exercer as funções para as quais tinha recebido nomeação do Cardeal patriarca de Lisboa, Dom José Sebastião Neto, aquando da sua chegada a Portugal, ou seja, ser o Perfeito de Estudos do Seminário Patriarcal de Santarém, ministério que o acompanhou durante 5 anos, de 1900 a 1905, e professor do terceiro ano de latim, de conversação latina e de teologia dogmática. Em 1903, a estas disciplinas juntou ainda a lecionação da disciplina de Alemão e participação no júri dos exames de Inglês, no Liceu Nacional de Santarém.

A par da docência, a vida do Padre Manuel Mendes ao serviço do Reino abarcou muitas outras áreas, fundamentalmente no campo espiritual, fomentando uma verdadeira e profunda vida espiritual em tantas almas que, através dos retiros por ele pregados, da confissão sacramental ou da direção espiritual, foi considerado unanimemente um homem de coração e de talento.

Ocupa ainda um lugar muito importante no exercício do seu ministério destes primeiros anos de sacerdócio o serviço da pregação. Fruto do conhecimento que lhe vinha do estudo, da sensibilidade que lhe vinha da oração e da eloquência simples da palavra tocante que lhe vinha do conhecimento da pessoa humana e ainda da sua história de vida, amassada na Palavra de Deus, torna-se um inflamado e bem conhecido pregador (caraterísticas que manteve até aos últimos dias da sua vida para os mais variados e ilustres auditórios), porque anunciava Jesus Cristo aos homens com sede de Deus, matando a sede dos homens com a sede de Deus.

Exemplos claros são os seus escritos nestes primeiros tempos, onde se percebe que cada pregação era preparada com todo o cuidado e conhecimento da doutrina da Igreja, minúcia e arte no uso da sua língua materna e maturidade nascida da reflexão, que o levava a escrever com maestria, simplicidade, profundidade, musicalidade e extremo coração. Proferida na sua terra Natal, a sua primeira pregação manifesta, com profunda clareza, as caraterísticas anteriormente referidas: “Bela e consoladora é para todos vós e para mim esta coincidência […]. Para vós, porque no dia da glorificação da Virgem, vindes render pública e solene homenagem ao culto do Divino Espírito Santo, àquele por cujo hálito a Igreja é bafejada, cuja ação a anima, cujo influxo a vivifica […]. Para mim, porque filho desta freguesia, batizado nesta Igreja e tendo passado entre vós os primeiros anos da minha existência, não posso deixar de sentir um não sei quê de extraordinário em meu coração ao ver-me de novo entre vós a distribuir-vos o pão da divina palavra”.

Testemunha Francisco Maria da Silva, na obra “Alma do Arcebispo Apóstolo”, que o Padre Manuel Mendes “começou por onde todos começam: subiu, porém, a alturas de pouco atingidas. Foi Mestre na arte de dizer e entrou na Academia. Uma nota impressionante desde já: a fidelidade ao Evangelho. A sua pregação tem uma constante, que são as verdades eternas e reveladas, aplicadas sempre às necessidades dos novos tempos. Começou o seu magistério no púlpito, mostrando os flagelos inerentes ao pecado; quem o ouviu, ainda nos últimos anos de vida, quando subia à cátedra  solene da Sé ou se dirigia a auditórios simples, pode testemunhar que o tema ainda era idêntico. Cristalizará? Mas o Evangelho não é constante? Uma só coisa o preocupava: a glória de Deus e que os homens, com a sua vida honesta e pelo cumprimento integral do seu dever, prestassem ao Senhor as homenagens que Lhe são devidas”.

Todo este trabalho nunca o impediu de estudar, familiarizando-se e aperfeiçoando os seus conhecimentos nas línguas inglesa, francesa, alemã, espanhola e italiana, usando-as tanto na escrita como na oralidade com altíssima correção e “manejando-as com excecional facilidade”, como, mais tarde, grandes literatos o testemunham. Guilherme de Vasconcelos Abreu, notável orientalista, contemporâneo do Padre Manuel Mendes e considerado por muitos “insuspeito e sábio professor, testemunha que “fazendo um propositado, embora disfarçado, exame ao saber do sr. Dr. Mendes Santos, concluí que era mais sabedor do que eu podia suspeitar”.

 

A Postulação

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Manuel Mendes prepara-se para a Ordenação Presbiteral

Manuel Mendes, como ficou conhecido desde os tempos do Roma, regressa a Portugal. Depois de, a 4 de maio de 1898, terminar o seu doutoramento em teologia, regressa ao país que o viu nascer e crescer na vida e nas virtudes naturais, como na vida sobrenatural e na caminhada vocacional, para, a 12 de dezembro do mesmo ano, ser ordenado diácono. E, cinco meses mais tardes, a 27 de maio de 1899, recebe, na Igreja do Seminário patriarcal de Santarém, pela imposição das mãos e oração consecratória, a sua ordenação presbiteral.

Antecedeu a esta data o seu retiro preparatório para a ordenação, aquele dia tão esperado e desejado pelo jovem Manuel Mendes e que, pelas circunstâncias da sua débil saúde, algumas vezes terá pensado não vir a passar de sonho, com início no dia 19 de maio. Colocando-se ele diante de si mesmo e do Senhor, a sua primeira atitude é reconhecer a razão daquele tempo de intimidade e que, fruto dos sentimentos do seu coração, transcreve no seu bloco de apontamentos: “A importância deste retiro deduz-se do seu fim, que é regular as nossas contas com Deus e pôr-nos no caminho da salvação. Os meios que temos para tirar dos exercícios todo o fruto devido são uma grande pontualidade em cumprir o horário e uma grande generosidade para com Deus”. E termina os seus apontamentos com uma breve oração: “Ó Jesus, eu me lanço nos vossos braços, disponde de mim como Vos aprouver, fazei de mim o que quiserdes. Que eu me reforme!”.

Meditando o Diácono Manuel Mendes no fim último do sacerdócio, conclui que é um dom “altíssimo, mas tremendo. É continuar a obra de Jesus Cristo na salvação das almas e oferecer o sacrifício augusto em que se imola o mesmo Deus. É um ministério que faria tremer os anjos… quais os meios para desempenhar bem estas funções e conseguir o fim? A oração mental, o Ofício Divino e a santa Missa”; o propósito que tira desta meditação é o seguinte: “Não deixar nunca a meditação, não deixar a preparação e ação de graças da Missa”; e o seu lugar é com Cristo Crucificado e Maria, no alto do Calvário: “Como obedece o meu Rei àqueles malfeitores, com os perdoa e reza por eles… E eu? Pelo menos, vou imitá-lo de agora em diante: ouvi os meus clamores. Reza pelos que o crucificam, dá-nos a sua Mãe como nossa Mãe. Como te amamos, ó Mãe? Ó Maria, lembra-te do testamento do teu Filho e faz de mim o teu verdadeiro filho. Tenho sede! Sede de quê, ó Jesus? Do sofrimento e das almas. Aqui está a sede que devo ter como sacerdote, principalmente se o Senhor quiser algum sacrifício e desapego de mim mesmo. Depois de tanto sofrimento Ele entregou o Seu Espírito ao Pai. Porquê? Para poder dizer que tudo está consumado. Ele cumpriu a vontade de Seu Pai. Também eu quero repetir as mesmas palavras no fim da minha vida; e, todos os dias, quero sacrificar e fazer o que Deus quer que eu faça. Então, começo a paz!”

Fruto deste mesmo retiro, que durou uma semana e no qual procurou rever toda a sua vida, fazendo da sua ordenação presbiteral uma “repartida” que o levaria à meta onde Jesus Cristo, Sumo o Eterno Sacerdote estaria à sua espera e o acolheria com o abraço da Trindade, no reino dos céus, nasceram grandes propósitos, os quais foram preocupação constante ao longo de toda a sua vida, não só na dimensão espiritual ou sobrenatural mas também na dimensão e natural, a fim de, cada vez mais, se aproximar do Senhor e com Ele viver uma profunda e séria comunhão. Exemplos desse desejo são, a fim de alcançar a virtude da temperança, “não me exceder na comida e sobretudo na bebida. Não me levantar da mesa sem ter feito alguma mortificação de gula” e, para obter a virtude da caridade, “ser muito afável e doce para com todos. Não me impacientar com os pecadores e usar para com os pobres de uma benevolência especial”. Para alimentar e sustentar a sua vida de fé, propõe-se “fazer todos os dias, apenas levantado, meia hora de meditação. Fazer sempre a preparação para a missa e no fim pelo menos um quarto de hora de ação de graças. Muito recolhimento na Missa. Confissão Semanal. Retiro mensal, nas quintas antes da primeira sexta-feira. Exame geral quotidiano e particular sobre o amor próprio. Terço quotidiano e devoção a São José”.

Foi com estes profundos propósitos – sem deixarem de ser simples e acessíveis a todos –, que o jovem Manuel Mendes subiu ao Altar do Senhor para se tornar Sacerdote do Senhor, segundo a ordem de Melquisedec, no dia 27 de maio de 1899, sendo ordenado por D. Manuel Batista das Cunha, Bispo Auxiliar de Lisboa e Arcebispo de Mitilene.

A Postulação

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Na Cidade Eterna nem tudo foram rosas…

O ano de 1897 foi, para o jovem Manuel Mendes, um ano muito difícil. Os problemas de saúde que não permitiram que ele fosse para Roma iniciar os estudos teológicos, em outubro de 1894, e que o prenderam à cama até 12 de dezembro, voltam a atormentá-lo ao longo de todo o ano de 1897, desde o primeiro dia do ano até aos finais de outubro.

Percorrendo as suas agendas pessoais que, acima de tudo, são o seu diário, pois é nelas que, desde 13 de dezembro de 1896 até à sua morte, Manuel Mendes vai escrevendo algumas notas de experiências vividas cada dia, percebemos que foi, sem dúvida, um ano muito difícil, de uma crise de saúde muito acentuada. No dia 1 de janeiro escreve: “Recebi hoje uma caixa com cápsulas que amanhã começarei a tomar por causa de uma tosse que trago há dias” e, no dia 5, escreve: “hoje fiquei na cama para ver se curava a tosse. Veio o médico novo, Pergallo, e mandou-me para a enfermaria. Cá estou, portanto na enfermaria, pela primeira vez desde que estou no Seminário Romano. Deus queira que seja por pouco tempo”. Dois dias depois, explica que “toda a minha doença é tosse, mas como ela é muito forte tenho que ter cautela”.

Por aconselhamento do médico, muitos meses do ano de 1897 foram passados no Sanatório marítimo de Nettuno. Porém, não foi tempo perdido, pois o jovem Manuel Mendes foi aproveitando para se preparar para os exames, ainda que, pelas circunstâncias de saúde, não pudesse ter participado nas aulas, como ele próprio escreve na sua agenda, no dia 9 de julho, onde pode ser lido: “Passei todo o dia a preparar-me para o exame de licença que farei amanhã”. E, no dia 10, escreve: “Fiz o exame de 3.º ano de Teologia hoje, às 6 horas da tarde e, graças a Deus, passei a pieni voti. Foi decerto uma graça que Nossa Senhora me fez, pois eu estava com muito medo”.

Terminados os exames, a 27 de julho, vai para Rocantica, para, numa quinta do Seminário ali existente, fazer alguns tratamentos com os ares do campo. Mas, no dia seguinte, o médico reenvia-o para Nettuno, onde ficará até ao dia 28 de outubro de 1897, data em que regressa totalmente refeito da sua saúde.

Não obstante a circunstância de estar longe dos seus companheiros e dos objetivos que o levaram para Roma, nos apontamentos que vai registando nas suas agendas, tudo e todas as circunstâncias vai aproveitando para viver na alegria de se sentir filho e amado por Deus. Na sua profunda confiança em Nossa Senhora, nesta hora que terá sido difícil para Manuel Mendes, escreve: “Eis-me de novo nesta praia, longe dos meus companheiros e quem sabe por quanto tempo? Nossa Senhora queira que seja pouco e melhore depressa”. E foram ainda mais três meses…

Até na doença e na recuperação da sua saúde tudo era “aproveitado” por ele como dom de Deus, até a passagem de sacerdotes de outras origens, para aprofundar e praticar os seus conhecimentos em língua estrangeira. São de realçar ainda duas facetas do jovem seminarista: a alegria e o tempo.

Mesmo em ocasiões de sofrimento, a gratidão que leva à alegria cristã era uma constante em todas e por todas as circunstâncias, como se pode ler na sua agenda, em duas ocasiões diferentes deste mesmo tempo: no dia 11 de agosto escreve: “dei um passeio de barco com mais 12 ou 13 pessoas. Foi uma excursão verdadeiramente poética e alegre que deixou todos contentes. Havia bons cantores na comitiva e no meio do majestoso silêncio da noite, sobre a superfície ondulada do mar, eram de um mágico efeito os harmoniosos cantos que se entoavam.” E a 1 de outubro escreve: “partiram hoje os missionários do Sagrado Coração (companheiros em Nettuno), com quem tenho estado em tão alegre companhia”.

O sofrimento ensinou Manuel Mendes a valorizar o tempo como dom de Deus e que, como tal, não pode ser desperdiçado, como ele próprio escreve: “Oxalá que o ano que hoje começa seja todo passado no fiel cumprimento dos meus deveres, a fim de que ao fim dele, se Deus permitir que eu lá chegue, eu não sinta o mínimo remorso por haver empregado mal o tempo que Deus me concede.”

A Postulação