Encontro com a Mãe

O dia 23 de outubro de 1895 fica marcado para sempre na vida do jovem seminarista Manuel Mendes da Conceição Santos. Indo ele a caminho de Roma para continuar os seus estudos, com os seus medos, as suas inseguranças, a responsabilidade de representar um país e os seus futuros sacerdotes no centro da Cristandade, passados os Pirenéus e entrando em França, ele encontrou a Mãe, Nossa Senhora de Lourdes. Aquele encontro foi tão importante que para sempre marcou a sua vida.

Mais uma vez, vamos ao seu caderninho de apontamentos ou diário de bordo e transcrever o que se refere às curtas 28 horas em que Manuel Mendes se encontra com a Mãe e com o seu solar, em Lourdes.

«Erguiam-se, diante de nós, majestosamente, os Pirenéus coroados de nuvens, e ao nosso lado estendiam-se vastas campinas onde se notavam os benéficos efeitos da drenagem. Havíamos passado a estação de Mouthant-Betharram quando, pouco depois, os Pirenéus nos apresentaram um espetáculo inteiramente novo e cheio de atrativos. Um grande crucifixo coroava a montanha e mais abaixo erguia-se majestosa a Igreja de N.ª S.ª de Lourdes – espetáculo fascinador, sensação extraordinária. Os nossos corações apressam as pulsações e anelam pela ocasião solene de orarmos à Virgem nestes lugares que ela santificou com a sua presença.

Chegados à estação, dirigimo-nos à Igreja de N.ª S.ª de Lourdes. Ao entrarmos na igreja, que sublime espetáculo fomos encontrar! Que majestade!, que elevação de pensamento! – Centenas de bandeiras pendem da parte superior do edifício e as paredes estão literalmente cobertas de lápides comemorativas de graças e, em toda a extensão das naves, pendem inúmeros ex-votos, corações dourados e pequeninos quadros, tudo comemorando graças da Imaculada.

A igreja é majestosa, consta de três naves e tem numerosos altares e muitas estátuas. Predominam as da Virgem e do SS. Coração. Tem uma só torre sobre a porta principal, segundo o estilo francês. Lá ao fundo, sob um gracioso baldaquino simulando uma basílica, eleva-se uma estátua de Nossa Senhora de Lourdes em cuja honra são todas as magnificências que aqui se admiram. Orei por algum tempo neste templo bendito e depois desci à cripta onde tive a invejável felicidade de confessar-me e comungar. Aqui se dizem continuamente muitas missas e, em todas elas, há numerosas comunhões de homens e senhoras de todas as condições. Aqui as formas são pesadas e severas, convidando ao recolhimento, ao passo que as formas graciosas e arrojadas da igreja arrebatam a imaginação fazendo-a adejar pelos coros celestiais. Na cripta há um recolhimento difícil de imaginar; ali todos os lábios murmuram preces ferventes, todos os corações pulsam de amor, todos estão repassados de uma devoção que só santuários como este podem contemplar. Daqui passei à gruta: não sei nem posso explicar a comoção que se sente quando, depois de descer a ladeira que vai expirar nas margens do Gave se vê a gruta fragosa, a Imagem da Virgem alva de neve numa cavidade alpestre, dezenas de lumes ardendo continuamente, centenas, para não dizer milhares de muletas, talos e outros instrumentos próprios de doentes e, dentro da gruta e nas lajes da avenida, ajoelhada, uma multidão de crentes, uns derramando lágrimas, outros murmurando preces, outros beijando a gruta bendita.

Aqui um cristão necessariamente ajoelha, ora, suplica, agradece e sente-se preso a este lugar perfumado pelos suaves odores da presença de Maria. Aqui um ímpio arrepende-se, um ateu crê, um fatalista ora. Se há no mundo lugares que possam comparar-se com o Céu, é Lourdes um deles, ou antes, Lourdes é um vestíbulo, uma miniatura do Céu. Há ainda a Basílica do Rosário, soberba construção, onde a par da grandeza se admira a beleza das proporções e que deve ser esplêndida, quando concluídos os magníficos mosaicos das capelas. Já está concluído o do Nascimento do Menino Jesus, o qual engana a vista parecendo pintura finíssima. Visitei o Convento dos Missionários do Imaculado Coração a cujo superior fiquei sobremaneira obrigado.

Foi com a saudade no coração que me afastei destes Santos Lugares para seguir a viagem no dia 24, às 10 horas da manhã, depois de ter estado em Lourdes 28 horas que me pareceram poucos minutos. Lourdes é, por excelência, a Cidade da Virgem. Aqui chegou no dia 24, às 7 horas da manhã, uma peregrinação da Ordem Terceira de Pau, a qual, quando entrou, elevou à Virgem cânticos tão ferventes e tão harmoniosos que me pareciam hinos angelicais, entoados ao som das harpas dos Querubins. A igreja parecia-me um céu.

Disse adeus a Lourdes e, a par da saudade, levava na alma a esperança de que a Virgem me auxiliaria e escutaria meus rogos. Quem estiver desanimado, em Lourdes encontra necessariamente alento e esperança».

É longa a transcrição, mas não é certamente inútil. Por ela se compreende a profundidade da sua devoção a Nossa Senhora e o lugar que Lourdes ocupou no seu coração e na sua vida: foi lá que, não poucas vezes, foi como peregrino da Mãe de Deus, pedindo por si e pelos seus diocesanos; decisivas resoluções foram tomadas por ele naquele lugar, onde rezava horas seguidas em favor do governo e da Sua esposa, a Igreja de Évora, e a salvação das almas dos seus Diocesanos.

A confiança e o espírito filial para com Nossa Senhora não se ficou pelas suas peregrinações a Lourdes, mas com a vinda de Lourdes com o prelado eborense para o Paço Arquiepiscopal… quando se entrava, em seu tempo, na simplicíssima Capela do Paço, havia de se reparar que o vão de uma porta tinha sido aproveitado, por ele, para ali colocar uma minúscula reprodução da Gruta de Massabiele com uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes. E, mesmo ao lado, fizera colocar o seu genuflexório, como que Nossa Senhora lhe segredasse ao ombro o caminho por onde deveria conduzir a Igreja Diocesana que lhe tinha sido confiada. No quintal havia também uma Imagem da Virgem de Lourdes onde, não poucas vezes, foi visto a falar com Nossa Senhora e a desabafar as mágoas contidas do seu coração de Prelado.

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