Manuel Mendes e seu pai

Do jovem Manuel Mendes da Conceição Santos pouco se sabe. Sabemos, sim, que o Sr. Manuel Mendes morreu cedo, com muito pouca idade, no dia 24 de março de 1906. Mas dele, como se refere Francisco Maria da Silva, “herdou o exemplo nobre de quem tudo sacrifica à palavra honrada. Empreiteiro de obras, viu um dia o seu nome comprometido. Foram-se os bens, mas a consciência nada perdeu da sua limpidez e serenidade”, o que revela, com tanta lucidez, a “têmpera austera e cristã”, que nunca fugiu às suas responsabilidades humanas, cristãs e familiares. De seu pai, dizia Manuel Mendes: “como em toda a sua vida, meu pai se dedicou à lavoura, entende ele que afora com as forças quebradas como tem e, apesar do regime que tem a seguir, deve ainda continuar na mesma faina. E note V. Ex.cia que meu pai não é de muitas medidas. Para tratar de fazendas esquece tudo, o estado melindroso da sua saúde, as horas de refeições, as precauções que deve tomar. Assim não é nada para admirar vê-lo às vezes encharcado em água e, como tem pouca agilidade, cai e chega à noite estafado e tão abatido que chega a inspirar cuidado. Se lhe digo que se deixe da lavoura e trate de si, que se contente com uns passeios pequenos pela vila (Torres Novas), responde que não pode ser, que ainda tem forças e que isto lhe dá vida”, a ponto de implorar de São Luiz de Gonzaga, a 21 de junho de 1899: “mudai o génio de meu pai”.

Este amor ao trabalho, esta tremenda força de vontade que fazia o pai esquecer tudo o resto que estava à sua volta, herdou-o o filho Manuel Mendes na totalidade. Quando estava em jogo a salvação das almas, o bem do próximo ou o bem da Igreja, o jovem Padre e depois Bispo Manuel Mendes da Conceição Santos nunca teve horas para descansar, para os lazeres ou mesmo para os tratamentos da sua saúde. Como diziam os seus colaboradores mais próximos entre si: “obedecerá ao médico, mas há-de morrer a trabalhar”. E, quando esses mesmos lhe tentavam pregar usando o mesmo tom que ele usava para seu pai, a necessidade do descanso, a sua resposta era sempre a mesma, tal como lemos nas biografias dos grandes santos: “Teremos tempo, tenho uma eternidade inteira para descansar e depois de mim virá outro arcebispo!”.

Terá sido – querendo nós imaginar – esta mesma firmeza de caráter, força interior e capacidade de sacrifício, que o jovem Manuel Mendes da Conceição Santos viu na vida de seu pai e que sentiu na mão que o conduziu até à escadaria solene do Seminário Patriarcal de Santarém, a 2 de agosto de 1890, data da sua entrada no Seminário. E a retribuição sentiu-a quando viu o seu filho neossacerdote a “subir os degraus do Altar para imolar o Cordeiro Imaculado. Dessa honra tivera consciência e, em sua humildade, a agradecia ao Omnipotente. Porém, se teve a graça de ver seu filho Padre, o mesmo não se pode dizer de ver o seu filho Bispo, pois o Sr. Manuel, seu pai, veio a morrer a 24 de março de 1906 e a ordenação episcopal só acontecerá dez anos depois, a 3 de maio de 1916. Quanta tristeza, quanta dor, quantas saudades… “Faz hoje 21 anos que ele faleceu. Que repouse em Deus, já que em vida tantos baldões sofreu… Como o tempo foge”. Tudo isto leva o Servo de Deus a escrever na sua agenda de 1924: “Que saudade recorda este aniversário! Que solidão em volta de mim, progressivamente agravada, desde esta separação! Bendito seja Deus por tudo! No céu nos juntaremos!”

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