No governo da Diocese

A perseguição à Igreja não desarmava. Dirigia-se principalmente contra o episcopado, sobretudo devido à sua reação contra a Lei da Separação da Igreja do Estado, pela forma como se encontrava redigida. Prevendo tempos difíceis e anormais para o governo da Diocese, D. Manuel Vieira de Matos, depois de, em 1909, por proposta sua ao rei D. Manuel II, conforme os costumes da época, o padre Manuel Mendes ter recebido o canonicato, decidiu nomear três governadores para a Diocese: os cónegos Barbas Freire, António Augusto Lopes e Manuel Mendes da Conceição Santos; e a razão está bem patente na Provisão de nomeação de 1911: “… para no caso de nos vermos forçado a deixar a diocese ou de sermos impedido de a administrar” porque, como refere D. Manuel Vieira de Matos no mesmo documento, é necessário “providenciar à regular administração da nossa Diocese na época anormal que a Igreja vai atravessando no nosso País”.

Afirma Francisco Maria da Silva na grande Alma do Arcebispo Apóstolo que “embora juridicamente seja o reverendo cónego Barbas Freire o governador, de facto, quem exerceu esse múnus foi o cónego Mendes dos Santos. São centenas as cartas que se conservam do Arcebispo exilado para o ‘Senhor Reitor’, tratando os mais variados assuntos relativos à Diocese, aos padres, ao apostolado em geral. Como centenas são as cartas recebidas por ele de sacerdotes, muitas repletas de pessimismo e do desânimo que lhes ia na alma. A todos encorajava, fortalecia, traçava normas com caridade, prudência e firmeza. E a todos defendia, sobretudo aos que eram perseguidos por amor da Igreja.

Pode mesmo afirmar-se que, nos momentos difíceis que a revolução de 5 de outubro de 1910 trouxe à vida das dioceses em Portugal, o Cónego Mendes Santos esteve à altura das circunstâncias na luta intrépida pelos direitos da Igreja, como bem se compreende ao ler-se a transcrição da sua intervenção em pleno tribunal em defesa de um sacerdote, da qual ousamos transcrever alguns excertos: “Pela primeira vez, nos anais deste tribunal, se viu um luzido grupo de Senhoras da primeira sociedade de Trancoso, a assistir a uma audiência. Gentilmente o senhor juiz mandou-lhes oferecer cadeiras adentro da teia, onde se viam também numerosos advogados e cavalheiros dos mais distintos da vila”.

“Quem afinava também de grande era o senhor administrador do concelho cuja ciência canónica não emparceira com o brilho do seu apelido e com ele a igrejinha doméstica, incluindo o infeliz sacerdote que se prestara a esta burla. Contra esse padre foi instaurado processo na cúria episcopal, por causa de gravíssima irregularidade que praticava”.

“Reaberta a audiência continuou a ser inquirido o senhor dr. Mendes Santos, ou melhor, continuou o debate entre o sr. dr. Delegado e esta testemunha, sobre o assunto que fora discutido na véspera. Por vezes a discussão acalorou-se, tornou-se palpitante, apaixonando o público que a ia seguindo com avidez, manifestada no religioso silêncio com que era escutada; e terminou após uma hora e meia, durante a qual, sempre com delicadeza irrepreensível e numa forma elevada se trocaram de parte a parte rijos botes de argumentação”.

“E voltando ao ponto de partida, como o sr. dr. Delegado tivesse aludido à possibilidade de o arguido ter desacatado as leis da República, o sr. dr. Mendes Santos disse que a República, pela letra da Constituição, garante a liberdade de consciência e esta supunha a liberdade integral da religião; mas se um dia uma lei pretendesse ingerir-se no domínio da sua consciência e impedir-lhe a prática da religião que professa e ama, ele sujeitar-se-ia às penalidades da lei, mas não atraiçoaria por ele a sua consciência e a sua religião”.

Palavras proféticas.

Junho de 1923

A Postulação

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