O Bispo é…

Entramos agora no retiro de preparação para a Ordenação Episcopal de Dom Manuel Mendes da Conceição Santos e, com ele, no mais íntimo na sua alma… Estamos em Ciudad Rodrigo e no dia 11 de abril de 1916. Depois de ter dedicado os primeiros dois dias a meditar nos Novíssimos do Homem, o Padre Manuel Mendes entra no terceiro dia da sua paragem e, com ele, na razão de ser da sua “paragem abrupta”, pois nunca fez retiro neste mês e – pior ainda – nunca pensaria fazer retiro por esta razão. Sente-se incapaz de tão elevada missão ou, como ele próprio inicia os seus apontamentos espirituais deste dia, “Sobre a minha miséria o Senhor quer levantar um grande edifício. Estremeço ao comparar a minha indignidade com a sublime dignidade que vem sobre mim”.

O primeiro ponto de reflexão desta nova fase do retiro, que o leva a tirar propósitos muitos concretos e a descobrir os seus pontos de luta tem a ver, como ele próprio intitulou, com a “grandeza do estado episcopal”. A partir das três expressões com que é denominado o Bispo, Manuel Mendes compreende profundamente a missão que lhe é confiada e que ele resumiu da seguinte forma: “Ficaremos indissoluvelmente unidos. Como nos desposórios materiais, mas de maneira mais sublime, deixarei tudo, parentes, amigos, relações, para seguir a esposa e viver para ela. Tudo o mais passa para um plano secundário”. Fruto desta meditação, tirou o seguinte propósito: “Desde agora eu proponho e prometo trabalhar pelo teu aperfeiçoamento, pelo teu esplendor porque despondi te uni vivo virginem castam exhibere Christo [desposei-te com um único esposo, Cristo, a quem devo apresentar-te como virgem casta]. Oxalá eu saiba afervorar e compreender cada vez melhor este amor e esta missão”.

O Bispo é, como anota o Padre Manuel Mendes, o sucessor dos apóstolos. “Como os apóstolos, eu sou enviado para dar testemunho de Jesus Cristo. E tenho que o dar, com as palavras, com as obras e com o sofrimento, quando for necessário”.  A missão é grande e o instrumento sente-se tão fraco para tão grande missão… “Eu quero, mas sou tão fraco…” “Que misericórdia e ao mesmo tempo que confusão para mim!”… “Que cuidado preciso ter para bem representar a Jesus, para não trair a embaixada que me confiou!”

 O que fazer? Dizer ao Senhor no íntimo do seu coração: “Meu Jesus, fazei que eu dê sempre testemunho de vós. Como os apóstolos non ego elegi eum sed ipse elegit me [não fui eu que o escolhi, mas foi ele que me escolheu]. Também como os apóstolos, pro Christo legatione fungor [eu sou embaixador de Cristo]”. 

A segunda palavra escrita por Manuel Mendes e que refere profundamente a sua missão é a palavra Episcopus, ou seja, Bispo. Com esta expressão, ele toma consciência que “Sou superintendente, inspetor, vigilante”. Num clima histórico-político tão adverso à realidade do Evangelho, pois estamos a viver a primeira república, o seu coração estremece e a sua pena escreve: “Que deveres tremendos incluídos nesta palavra! Não posso distrair-me com outras coisas, tenho que velar, olhar continuamente, para que as ovelhas se não tresmalhem, para que o lobo não entre no rebanho”. Porém, a vigilância ou a superintendência não é à maneira dos homens nem por substituição a Jesus; é sim, à maneira de Jesus e em profunda união com Ele, pois é Ele o primeiro que sempre está de vigia; por isso, o futuro Bispo de Portalegre escreve: “Jesus, velando de contínuo no sacrário, será o meu modelo. Vigilate et orate. Pastor. Bonus pastor animam suam dat pro ovibus suis [Vigiai e orai. O Pastor. O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas]”. Consciente da sua missão e da sua realidade, reza ao Senhor: “É assim que eu quero ser: mas como, se sou tão egoísta? Ó Jesus, transformai-me!”.

Por fim, a terceira palavra na qual o Padre Manuel Mendes pega para se referir à sua missão, é a palavra Praelatus. Antistes, ou seja, Prelado, Antístite. “Quer isto dizer – escreve ele – que devo ir adiante de todos na diocese, de sacerdotes e leigos: preciso de ser o primeiro na piedade, no amor de Deus, no zelo, na prática, em suma, das virtudes cristãs: preciso de ir à frente quando se tratar de defender os direitos de Deus, quando houver alguma coisa a sofrer por Cristo e pela sua Igreja

Consciente do chamamento da Cristo, escreve: “Oh! eu quero ser prelado desta maneira”, consciente da sua fragilidade, “assusta-me, porém, sempre o conhecimento da minha incapacidade” e consciente de que não vale a pena lutar contra o Senhor, confia e reza: “Meu Jesus, dai-me forças, já que me chamais!”. 

Quanta lucidez e quanta atualidade lemos neste pequeno número dos seus apontamentos espirituais. Se não soubéssemos que são de Dom Manuel Mendes, não poderíamos dizer que são de algum Bispo dos nossos tempos ou mesmo do Papa Francisco?…

 

A Postulação

Share on facebook
Share on twitter
Share on email
Share on whatsapp
Share on print
Shopping Basket