Rumo à Cidade Eterna

Em virtude das suas excecionais qualidades morais e intelectuais, o Patriarca de Lisboa, o Cardeal Dom José Sebastião Neto, escolhe Manuel Mendes para ir completar, em Roma, a sua formação académica e ocupar um dos três lugares criados no Seminário Pontifício Romano (também denominado por Seminário do Papa), com a bolsa de estudos oferecida pelo Papa Leão XIII para os alunos provenientes do Patriarcado de Lisboa.

Quem conheceu de perto a sensibilidade da sua alma, o seu amor à família, a sua dedicação aos professores e aos colegas, o seu ardor patriótico e se apercebeu também da sua grande fé e amor à Santa Igreja, compreenderá que seria ele, um dos escolhidos para se formar em Roma…

Tudo estava preparado para que Manuel Mendes partisse em outubro de 1894, para iniciar os seus estudos em Roma, não fosse o problema de saúde que dele se apoderou. É ele próprio que escreve sobre isso no seu caderninho das contas: “Em outubro de 1894 vim para o Seminário no dia 1 para estudar alguma coisa de italiano e no dia 3 partir para Roma. No dia 3 adoeci e, ainda no Seminário, tomei 20 cápsulas de sulfato de quinino, meio litro e mais 700 gramas de limonada sulfúrica e um litro de limonada saturada de citrato de magnésio. No dia 27 do mesmo mês, parti para a minha casa onde se me agravou o estado de saúde e lá estive em tratamento até ao dia 11 de dezembro, em que voltei para o Seminário. No dia 12, apresentei-me aos professores que, de muito má vontade, me admitiram na aula, principalmente o Sr. Dr. Jerónimo”.

Porém, nada disto obsta a que, nesse mesmo ano, apesar das vicissitudes de saúde e da pouca vontade dos professores, tenha frequentado, com aproveitamento, o primeiro ano de teologia no Seminário Patriarcal, tendo partido para Roma, no ano seguinte, no dia 20 de outubro de 1895, a fim de frequentar a Universidade de Santo Apolinário, onde havia de doutorar-se em Teologia, em maio de 1898 e o Instituto fundado por Leão XIII, onde se diplomou em Letras Latinas, especializando-se em Grego, Hebraico e Árabe e aprofundado os seus estudos das “línguas vivas”, como italiano, castelhano, francês, inglês e alemão, sem nunca descurar a sua vida espiritual. Pelo contrário, a ela se entregava com todo o empenho, alicerçado em quatro grandes pilares: na coragem aprendida do Sagrado Coração de Jesus, na confiança em Nossa Senhora, e na devoção a São José e identificação com São Luís de Gonzaga, seu angélico protetor, pedindo-lhe que o fizesse um sacerdote santo.

A sua viagem para Roma inicia-se a 20 de outubro de 1895 e, com ele, vai o seu amor fiel ao Seminário de Santarém. Amor fiel que durou até ao fim da sua vida; “se eram para ele saudosas as paredes daquele glorioso Seminário, igualmente o eram companheiros e superiores; mais tarde, nunca passará por Santarém sem entrar nesse santuário para conviver por instantes com os mestres, os seus antigos condiscípulos. Nas suas festas mais importantes estará presente: no alargamento das instalações «reconquistadas», nas homenagens ao Venerando Reitor, etc…. Não só pela posição que ocupava na Igreja, mas ainda pelos laços do coração que o prendiam ao velho Seminário, ele era a mais alta glória do Seminário de Santarém”, como havia de escrever o Cardeal Cerejeira.

A bonita viagem que o jovem seminarista está a fazer até à Cidade de Roma vai sendo descrita no seu pequenino caderno de apontamentos: descreve as terras portuguesas e espanholas por onde vai passando na sua viagem de comboio, nota se as pessoas e os empregados são atenciosos e delicados, regista que aquela senhora vai a rezar o terço e fixa a hora exata da sua entrada em França e a impressão que os Pirenéus lhe causam, com surpreendente beleza das suas paisagens, até se deter, no dia 23 de outubro de 1895, em Lourdes, momento marcante da sua vida.

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