Vice-Reitor do Seminário da Guarda

Tempos difíceis para a Igreja: arrombavam-se as portas dos templos, violavam-se os sacrários, mutilavam-se as imagens sacras, espoliavam-se os bens da Igreja, perseguiam-se os sacerdotes e os bispos, afastavam-se os fiéis do culto comunitário e vigiava-se o culto familiar e privado. É neste contexto que, em abril de 1903, Dom Manuel Vieira de Matos é nomeado Bispo da Guarda. Levava como plano pastoral para aquela diocese formar solidamente o clero, animar a Pastoral Juvenil e fortalecer o apostolado no meio operário.

Um plano tão divinamente ambicioso como humanamente impraticável neste contexto histórico. A não ser que, a seu lado, tivesse um colaborador tão inteligente como modesto, tão ativo com contemplativo ou sobrenatural, tão competente como afetivo… Com estas caraterísticas Dom Manuel Vieira de Matos, dos tempos de Bispo Auxiliar de Lisboa, só conhecia um sacerdote, na diocese de Lisboa, oriundo dos lados de Torres Novas e que estava a exercer o seu ministério no Seminário patriarcal de Santarém como professor, o Padre Manuel Mendes da Conceição Santos.

Havia, porém, um problema: esse sacerdote, porque era da diocese de Lisboa, só poderia ser deslocado para a diocese da Guarda se o Cardeal Patriarca o permitisse, o que percebeu, por resposta a cartas suas que era impossível, o que o levou a recorrer às mais altas instâncias eclesiásticas e a um diálogo muito pouco cordial, até que Dom José Sebastião Neto finalmente acedeu enviar o Padre Manuel Mendes para a Guarda, a fim de assumir a formação do futuro clero daquela diocese. Com a responsabilidade de ser “vice-reitor do Seminário da Guarda”, chega àquela cidade episcopal, sob os auspícios da Santíssima Virgem, sua “boa e querida madrinha”, no dia 8 de setembro de 1905 e, com ele, a fama que o acompanhava de cavaleiro ilustre, sacerdote exemplar e professor cheio de mérito.

As instruções recebidas do Bispo diocesano e a personalidade do Vice-Reitor do Seminário, alicerçada numa sólida piedade, numa vida disciplinar perfeita e de uma nítida compreensão da alta e exigente missão sacerdotal, foram influenciando a decisão livre e responsável de cada um dos candidatos ao sacerdócio que, não revelando quaisquer aptidões, fossem pedindo para abandonar aquela instituição. Ao mesmo que internamente cuidava da disciplina da comunidade residente no Seminário, exteriormente defendia a sua honra, os seus direitos e os seus formadores e formandos. Provam-no a carta por si enviada ao “Jornal do Povo”, em 1912, a fim de corrigir algumas afirmações que punham em causa a seriedade dos sacerdotes ali residentes e com missão formativa, através da qual deixa os seguintes esclarecimentos: “todos eles são dignos, de comprovada honradez e probidade, incapazes de abusar do seu ministério (no que aliás, cometeriam um crime gravíssimo) e eu prezo-me também de ter a hombridade necessária para não admitir infâmias desta ou doutra espécie”.

E quando tentam pôr em causa a parcialidade do Vice-Reitor, este responde com toda a firmeza: “dessas informações assumo toda a responsabilidade, desde que tenham sido dadas por mim, pois me guio sempre pela minha consciência e assim espero continuar a fazer, aconteça o que acontecer. Dos meus atos estou pronto a dar contas a quem tenha direito de mas pedir; os motivos que imperam no meu ânimo ao dar qualquer informação não posso nem devo assoalhá-las em público, proíbe-mo a dignidade e o respeito que devo às minhas funções e ao bom nome alheio”.

Estas injúrias vindas de fora e de dentro da Igreja eram simplesmente fruto do desejo de esvaziar a Igreja da sua moralidade com o intuito de, com justificação, encerrar o Seminário, o que veio a acontecer, sem motivo algum, a 28 de outubro de 1914, através de uma intimação na qual estava escrito que o Vice-Reitor deveria enviar os alunos para casa, despedir os formadores, abandonar a casa, entregar as chaves… depois de a 15 de abril de 1913, terem encerrado a sua Igreja e proibido o culto. Porém, não se deixou o Padre Manuel Mendes quebrar ante tal decisão e, a 30 de dezembro do mesmo ano, já estava a celebrar a Eucaristia num edifício, no Fundão, para onde iria, a partir de janeiro de 1915, o “Internato Académico” (Seminário da Guarda) com 25 alunos (seminaristas)…

A Postulação

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